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quarta-feira, 25 de julho de 2012

CÂNTICOS SERRANOS N° 2

     Os Cânticos Serranos n° 2, de Guerra Peixe, foram escritos em 24 de março de 1976, e iniciam-se no movimento andante   forte  e  terminam  poco  affretando   e  ritardando.

        A  letra  da  música  traz  os  versos  do poeta  Raul de   Leoni (1895/1926) que revela um encontro casual mergulhado  na  inocência,  transformando  a  intimidade  em  saudações  de  simples  cortesia.  Ao  finalizar  a  poesia,  ele  descreve:
     
       
     Nunca mais nos falamos...  vai distante...
      Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
      Em que seu mudo olhar no meu repousa.”
      “E eu sinto, sem no entanto compreendê-la
      Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
      Mas que é tarde demais para dizê-la...”

Na sabedoria do silêncio, Jesus calou-se diante de    
Pilatos e Raul de Leoni, o poeta da emoção filosófica, faz calar fundo quem busca a verdade: 


       “Não sofras mais à espera das auroras
        Da suprema verdade a aparecer:
        A verdade das cousas é o prazer
        Que elas nos possam dar à flor das horas...

        Essa outra que desejas, se ela existe,
        Deve ser mais fria e quase triste,
        Sem a graça encantada da incerteza...

        Vê que a Vida, afinal – sombras, vaidades –
        É bela, é louca e bela, e que a beleza
        É a mais generosa das verdades...”    (5)
(5)     RAUL DE LEONI (in  Luz  Mediterrânea, p. 106)
 
       Ambos, o compositor e o autor da letra da música Cânticos Serranos, são naturais da cidade de Petrópolis, conhecida como a cidade imperial, que está erguida dentro da Serra dos Órgãos.
        A Pousada Chalé da Montanha, de propriedade de Jean Vieira, é confortadora e nos leva a certo encantamento que a paisagem serrana nos desperta.
        Encanto de inefável beleza é poder ouvir, à noite, sempre quando ocorre, os ventos correr em sons graves e agudos por todas as montanhas da Serra a nos fazer lembrar os órgãos (instrumentos musicais). À primeira impressão, quando ouvimos, pareciam ser os ventos que anunciam as chuvas. Mas, na verdade, são os cantos da Serra que a natureza nos oferece.
        Mesmo dentro do teor filosófico, há, a nosso ver, uma pequenina opacidade na poesia de Raul de Leoni marcada apenas por uma palavra: incerteza que, se fosse substituída  por inocência, perderia a rima com a palavra beleza, mas ganharia um sentido mais transparente, característica marcante do  grande  poeta  petropolitano.
        Os Cânticos Serranos têm uma letra que retrata uma situação muito comum no relacionamento de pessoas, principalmente àquelas que têm um convívio no trabalho ou  nos  ambientes  sociais  onde  buscam  a  recreação  e  o   lazer.
        Cumprimentar  as  pessoas  é  um  gesto  de  cortesia  e  envolve sentimentos que podem despertar algo mais que      uma  palavra  de  saudação  ou  de  elogio.
       No passado não muito distante, o poeta tinha um clima  favorável  para  declamar  palavras  de  amor  a  gentis  donzelas ou às senhoras casadas, estimulando-as a prática   das virtudes cristãs ou à apreciação da beleza inefável da  natureza. A mulher é sempre a musa que inspira os mais    belos  sonhos  de  amor.
      A comunicação no passado era mais retraída e estava  subordinada a condicionamentos sociais que impediam uma aproximação mais à vontade onde os desejos pudessem ser manifestados. Hoje, com maior rapidez, o telefone e a internet propiciam oportunidades de aproximação muito maior do que naqueles tempos de outrora, onde o amor era  uma  manifestação  acanhada   e  inocente.
    E assim o tempo corre... ou, melhor dizendo, aproveitando  as palavras do poeta “E a vida foi andando para frente...” Sem a comunicação desejada, há algo novo para ser  completado. Um olhar que ficou pairando no ar e guardado     no coração, uma palavra que veio numa linguagem que   precisa, como capítulo de novela, de uma continuação e de  um  final  feliz.   


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terça-feira, 24 de julho de 2012

MAGDALA

Escrita para canto e piano, a música Magdala, de Assis Republicano, traz os versos de Silveira Neto (1872/1942), membro da Academia Paranaense de Letras, pai do poeta curitibano Tasso da Silveira. No início surge o movimento  allegro con furia, allargando molto lentamente que dá espaço à  letra: “Colo que inveja o mármore leitoso, em taças rubras, tremula de gozo”.
A seguir, no andamento poco più mosso surgem as   palavras do canto: “o champanhe dos beijos gole a gole, Magdala”. No meio da trajetória musical há um crescendo molto que envolve a pergunta: “como ao sonho convertê-la?” A letra da música finaliza dentro do andante lento dolce.
Antes de comentar o enredo que se adapta aos costumes atuais, apresentamos as palavras de Villa–Lobos sobre o autor: “Assis Republicano é um dos mais talentosos compositores brasileiros, equipado de fartos recursos técnicos e de um fraseado espontâneo e agradável”.    (2)
(2)    HEITOR VILLA-LOBOS (in Acervo Virtual – Catálogos on line – Biblioteca Nacional - Rio de Janeiro - RJ)
Acrescentamos que o compositor Antônio de Assis Republicano (1897/1960), a exemplo de seu mestre Francisco Braga, compôs peças sinfônicas. A ópera de sua autoria A Natividade de Jesus foi encenada, em março de 1937, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Nos idos de 1942, o Hino Nacional Brasileiro, orquestrado pelo compositor gaúcho, foi oficializado por decreto-lei.
A letra da música Magdala, para canto e piano, aborda um tema bastante atual, o colo feminino, comentado em emissoras de rádio, jornais, e em emissoras de televisão.
Antigamente, e ainda hoje, os poetas se encantam diante dos seios da mulher. Castro Alves, o poeta libertador, imaginou sonhos vislumbrando a ideia de seios virginais, Lisboa Serra, poeta e presidente do BB (1853/1855), menciona o encanto feminino nos colos de alabastro. 

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

ELEGIA – CREPÚSCULO DE OURO

Destinada para baixo cantante e piano, Elegia – Crepúsculo de Ouro, Opus 10, do compositor paraense Artur Iberê de Lemos (1901/1967) foi escrita em 15 de junho de 1925, nos movimentos andantino moderato, pianíssimo, com suavidade, più mosso, molto legato, cantante e pianíssimo. A letra é de Félix Pacheco. O início descreve um panorama bucólico no qual o sol adormece no poente.
Membro da Academia Brasileira de Letras e, em várias décadas, jornalista do Jornal do Commercio, José Félix Alves Pacheco legou-nos uma obra rica nas áreas da poesia, história e ensaios. Na política exerceu mandatos de deputado federal, senador da República e ministro de Estado das Relações Exteriores.
O canto elegíaco, que a música revela, cria uma atmosfera contemplativa, até mesmo de meditação, e estende sentimentos que buscam o sagrado. A hora é mística do mistério e não do misticismo enganador. É a viagem à alma, sol divino que anima o corpo, numa contemplação ao pôr-do-sol que se espalha no horizonte revelando imagens de beleza transcendente.
O crepúsculo de ouro veste as tardes sentimentais e sugere-nos paz e melancolia. A natureza toda adormece, a tarde é vencida, os pássaros voltam aos seus ninhos, o silêncio cobre a paisagem no horizonte, fazendo a vida diminuir as atividades e o homem percebe que é a hora do silêncio e da meditação. O encontro com a beleza da paisagem o faz voltar-se a si mesmo, em pensamentos reflexivos que o ajudam a sair dos embaraços do caminho.
Assim como precisamos desfazer de um programa para entrar em outro, tanto na informática como na prática, é indispensável desligarmos das coisas passageiras para nos ligarmos as que têm um sentido eterno, mergulhado no sagrado. Daí ter surgido, às seis da tarde, a hora da Ave-Maria, em outros tempos mais reconhecida e devotada. Sem apreciação desse movimento, surgiu, nos dias atuais o declínio de valores éticos e sociais.
O comércio de permuta de valores espirituais sempre esteve presente na vida humana, desde que o mundo é mundo. No roteiro bendito das religiões sempre houve o estímulo à prece como recurso de atrairmos as dádivas preciosas que estão à disposição de todos, independente de qualquer condição social, basta que nos coloquemos à altura de recebê-las.
No sentido inverso, esse comércio também se estabelece, porque as vibrações do pensamento são energias que ganham espaço em direção do estado mental que escolhemos. Se na sustentação dos valores éticos há um clima que estabelece a beleza, na estrada da sombra há perigos que podem dificultar ou mesmo interromper a nossa caminhada, afastando os ideais sublimes que a vida nos oferece.
Se na sabedoria do rei Salomão encontramos as setas que voam pela noite, na palavra do vate piauiense há um aviso sobre a estrada, colocado à beira do abismo:
“Núncios da noite, irmã do mal que do alto desce lenta e lânguida, abrindo um pálio às agonias, só quem vos pode ouvir é o coração do poeta.”
Entre uma e outra, a decisão é sempre nossa. Precisamos dizer mais? Não. Estejamos sempre à vontade para escolher. Vida sublimada pelos ideais nobres, que elegemos num momento de inspiração, eis a nossa opção.
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domingo, 22 de julho de 2012

TOADA BARÉ

Os primeiros versos da Toada Baré, letra e música do pianista e compositor amazonense Arnaldo Rebello (1905/1984) têm uma revelação comovedora que confirma a lenda indígena sobre o pássaro do mais belo canto da Amazônia que, ao se expressar, constrói o seu ninho:
“Uirapuru está cantando na fronde do mututi.
Ói, mia mana, que alegria! É um novo amor que vem pra ti.”
Quando o uirapuru canta, toda a floresta silencia. O seu canto voa longe, muito longe e tudo fica mergulhado no êxtase.
O canto desse pássaro é uma pequena melodia e nos revela firmeza e elegância. A presença de sentimentos cândidos resplandece na beleza clássica de comovente sonoridade. Não possui o lirismo das canções napolitanas, mas tem o vigor dos sons das trombetas anunciando o rei.
Na floresta amazônica há luta pela sobrevivência, animais maiores devorando animais menores e os insetos se alimentando do sangue animal, do néctar das flores e dos frutos em botão. Há um equilíbrio na distribuição de alimentos nesse reino.
Os animais caminham pela floresta, alguns rastejam lentamente acariciando terras virgens e mergulham em igarapés para fazerem companhias às vitórias-régias - bandejas de um banquete aquático. Todos vivem na gangorra - matar ou morrer.
O canto do uirapuru é um canto de exaltação à vida. Nesses instantes de comovente beleza, a gangorra para ou diminui de ritmo, como nas orquestras sinfônicas, quando entra o solista para dar destaque na execução da música.
Esse pássaro da Amazônia desperta, no meio de todos os seres vivos da floresta, a sensibilidade para a arte musical e a empolgação dos jogos sedutores nos animais em acasalamento.
Os músicos, os compositores, os regentes são como esse pássaro de canto maravilhoso, e dedicam suas vidas para embelezar o planeta, numa expressão maior da arte que resplandece o amor.
Precisamos da música como alimento de nossa alma que se empolga e vibra para demonstrar que a vida íntima é um estuar de energias, como os ventos, o luar de prata, as praias ensolaradas, as montanhas de cachoeiras cantantes.
A música dos grandes compositores clássicos é ricamente trabalhada, como os diamantes, e nos anima a caminhar firmes, com entusiasmo ou simplesmente conserva a nossa calma quando vemos os ventos fortes derrubando casas na areia.
A música popular igualmente tem o seu valor. Mas possui letras e movimentos comprometidos com momentos de desencantos: paixões amorosas mal vividas, lamento e ausência de amores que seguiram novos caminhos. Há uma preocupação mórbida de cantar aquilo que está parado ou desfeito pelo tempo.
A música sertaneja, uma das vertentes da popular, traz a simplicidade do campo, dos valores não contaminados pelo homem, mas sofre a influência das oscilações sentimentais em que a maioria das pessoas passa. Sobressai em duplas de cantores que fazem grandes sucessos, muitos deles anunciados pela televisão, levando alegria ao grande público.
A pequena melodia que o uirapuru canta maravilhosamente traz um sentido solidário entre as criaturas da floresta, assim como os homens buscam nas casas de espetáculo ouvir mensagens musicais que lhes despertam o convívio salutar entre seus semelhantes.
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sábado, 21 de julho de 2012

ÓRBITA

Destinada para canto e piano, a música Órbita, de Armando Albuquerque, foi escrita, nos idos de 1947, em Porto Alegre, a capital gaúcha. Principais movimentos: no início é bem moderado, tornando-se mais forte, depois mais suave e no final é lento e fortíssimo.
Ainda com relação à música Órbita, o compositor Bruno Kiefer comenta que as linhas melódicas “apresentam uma horizontalidade muito nossa, horizontalidade que traduz uma certa timidez e, ao mesmo tempo, delicadeza de sentimentos.” (1)
(1)     BRUNO KIEFER (in Os Cadernos de Música/2, editados em 1973   pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre – RS)
Armando Albuquerque (1901/1986), imortal da Academia Brasileira de Música, e membro fundador da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea.
Os versos do poeta gaúcho Augusto Meyer (1902/1970), contidos no livro Giraluz, compõem a letra da música que nos fala de desencanto, no momento em que o pensamento mergulha em perguntas íntimas, num ambiente em que as fumaças de cigarro se esvoaçam, arredondadas pelo abajur. O coração está pesado, a carga de emoções é de chumbo.
O personagem da letra sente-se só, até o tapete está em isolamento, “ilha clara na noite do mundo”. Ele busca encontrar antigas perguntas: “quem murmura em mim?” E permanece triste e grave, não sabe sair dos desencantos. A noite que está nele se reflete lá fora caminhando “sobre as rosas, noivas pálidas ao luar”.
As horas da noite parecem reavivar a ferida no peito, mas temos a certeza de que, assim como o minuto dança na pausa do pêndulo, as horas passarão e, no final da madrugada, a aurora surgirá para revelar que a noite era apenas um momento passageiro.
Essa antiga pergunta: "quem murmura em mim?" é ele mesmo que precisa ser descoberto, é o ser etéreo que se liga à fonte.
Esta é a nova consciência planetária, a quinta dimensão unificada implantada depois de 26.000 anos de terceira dimensão dissociada em que se estabeleceu esta humanidade falsificada que ainda não ascendeu à atual dimensão de consciência.
A outra humanidade, em torno de quase 2 bilhões do total de 7 bilhões de habitantes, tem o coração murmurando como resposta à letra da música: “quem murmura em mim?”
A Terra possui apenas 350 milhões de habitantes vivendo a divindade, no entanto, em cada ser existente existe a divindade se manifestando, sem que exista ainda a consciência dessa manifestação nesse enorme conglomerado de populações. Nesse caso, é o sacrifício da luz que se manifesta dentro da ilusão.


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sexta-feira, 20 de julho de 2012

CÂNTICO DE AMOR

Do ciclo Três Cânticos de Amor, texto e música de Almeida Prado, o primeiro Cântico de Amor, possui movimento suave e lento que se destaca na leitura musical. O final morre em pianíssimo. A música, numa linguagem transtonal, é quase um canto-chão com melismas simples.
A letra da música dá-nos a ideia de alguém, vivendo desolado e triste, que foi redimido da solidão por um grande amor. A mulher amada, tocando os ombros dele, o fez ficar feliz. Ele pensou em não respirar para não assustar o pouso das mãos dela que pareceu a de um pássaro.
A letra ainda fala dos olhos da mulher amada que ancoraram feitos navios, perto o horizonte, porque o amor elimina a distância. Os cabelos da mulher sobre os ombros parecem uma árvore frondosa que espalha sombra amena, carinho que faz brotar uma fonte. A metáfora finaliza: “Agora são rios de uma intensa força, nada impedirá que estas águas inundem as terras do teu coração.”
Nascido em Santos, José Antônio Rezende de Almeida Prado, da mesma família de Vicente de Paula de Almeida Prado (presidente do Banco do Brasil: 14/9/1931 a 16/11/1931), foi aluno de grandes mestres da música: Camargo Guarnieri, Osvaldo Lacerda e Olivier Messiaen. Consagrado no Brasil e no exterior, é o autor de Pequenos Funerais Cantantes (1° lugar no Festival de Música da Guanabara), Prêmio ESSO de Música Erudita, Ars Nova, etc.
Lembrando-nos da trilha percorrida pela mulher à procura do seu amado de que nos falam os Cânticos dos Cânticos, do rei Salomão, a música e a letra sugerem-nos a descida ao jardim das nogueiras, e de uma pedra brotou a fonte que fez florir as vides e fez brotar as romeiras. A solidão da água da fonte agora flui, em profusão, planície abaixo, beneficiando as searas.
 
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CANÇÃO DO INVERNO

A Canção do Inverno, de Alceu Bocchino, foi escrita para canto e piano, nos seguintes movimentos: andantino, pianíssimo, crescendo, pianíssimo, sonoro expressivo e pianíssimo.
Natural de Curitiba, o autor é regente, compositor, pianista e professor de renome internacional. Nas décadas de 1960 e 1970 regeu, entre outras, a Filarmônica de Sófia, a Filarmônica da Bulgária, a Sinfônica de Bilbao e a Orquestra Nacional de Lisboa.
A letra é de Pery Borges (1895/1967), poeta gaúcho, teatrólogo, cronista e tradutor. De grande beleza espiritual, a mensagem que a letra da música transmite, leva-nos ao silêncio e à contemplação como se estivéssemos vendo bem perto de nós a paisagem paradisíaca e nela um anjo do Senhor nos indicasse o caminho.
A sabedoria elucida e conforta. Quantas vezes ficamos parados pensando no vendaval de acontecimentos que arrastam multidões de pessoas, individualmente ou em grupos! O planeta inteiro arde em brasas queimando detritos mentais e atinge todos os povos em todas as direções em que a rosa dos ventos gira.
É o milagre do nascer e o parto traz sangue, suor e lágrimas. O importante não é a dor, mas o que vem da dor. O milagre da vida nasce em todos os sentidos, no corpo e na alma. Um sussurro, uma evocação à saudade dos amores que nos enternecem a alma, dando-nos alento e conforto, é um nascer para um novo dia.
A letra da música manda-nos olhar um pouco mais além da paisagem encoberta do inverno que traz tardes longas, tristes e sombrias. Lá fora, um pouco mais longe, há o encanto das horas, dias felizes, amores correspondidos e dádivas abençoadas.
Há um convite para olhar, com os olhos d'alma, através dos vitrais a paisagem ao redor. A saudade recrudesce os bons momentos vividos pelos amores semeados em clima bom. Há sol iluminando jardins, luar de prata sobre a noite dos namorados.
A letra convida a pensar: “... quanta ave cantou na tua aurora, e quanto sol, amor, quanta alegria deram luz e calor aos belos dias da tua mocidade!”
Os motivos para sentirmos felizes são muitos, basta apenas um para que tudo possa se modificar ao redor ou nos lugares onde andam os amores que nos correspondem o afeto. Reunidos todos eles, seria o mesmo que criarmos um paraíso.
O inverno é uma estação de chuvas, menos sol do que no verão, o que nos leva a pensar em menos claridade, menos calor, mais frio, mais sombrio, como também simboliza a fase em que há menos vigor como na terceira idade, hoje melhor aproveitada do que nos tempos de outrora.
Lembrar com satisfação quantos elogios mereceu o nosso trabalho, quantos sorrisos femininos despertaram-nos sonhos, quantos abraços de colegas de trabalho e de familiares que apoiaram planos em comum!
As alegrias que recebemos por uma palavra, um olhar, um discurso que promove nossos ideais, e ainda a satisfação de ter uma vida em comum, levam-nos a um estado emocional onde há um equilíbrio constante, sentimos a plenitude do existir, mesmo que tenhamos uma vida simples no contexto social.
A juventude, como fase de vida, é um estuar de energias, e podemos senti-la em qualquer idade em que vivemos, não importa o tempo, o vigor que vem da alma transcende todas as idades e reaparece em outro campo vibratório onde a vida resplandece. Onde está a morte, se a vida está em tudo!

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quinta-feira, 19 de julho de 2012

CANDURA

Escrita nos movimentos musicais muito devagar e com verdadeira unção, legato e simplice, crescendo, diminuindo, com elevação, declamando com suavidade e com elevação, morrendo em pianíssimo, a música Candura, de Alberto Nepomuceno, tem um poema de Radindranath Tagore, adaptado para o português pelo tradutor Plácido Barbosa (1871/1938).
A consagrada poetisa Cecília Meireles, numa conferência sobre a vida e a obra de Tagore, realizada na ABI - Associação Brasileira de Imprensa, declarou: “A poesia tagoreana conduz a uma visão de santidade, de serenidade, na contemplação geral.”
A letra da música inicia revelando gestos delicados que envolvem ternura e carinho entre os namorados: “as tuas mãos nas minhas mãos, os meus olhos nos teus olhos, assim começou o nosso amor.”
Hoje em dia, quase não se vê os casais andar de mãos dadas, nem olhar nos olhos, talvez para não demonstrar em público o compromisso entre eles. A tendência atual dos namorados é ficar ou namorar, não há alternativa.
O carinho alimenta o namoro; as mãos, os olhos emitem vibrações sutis que afaga, anima, dulcifica e extasia o nosso coração, uma sensação de voo leva-nos ao estado emocional de leveza e sentimos vontade de voar mais longe, como pássaro abrindo o espaço.
Voar juntos, em sonhos acalentados, o êxtase é ainda muito maior como a sensação de orgasmo que não pode ser sentida isoladamente. Compartilhar a nossa energia dulcificada nas emanações sutis que o amor nos inspira é viver duplamente, corpo e alma.
O cenário ajuda-nos a viver esses momentos inefáveis. No clima romântico, que criamos, pode haver lua cheia ou outras fases da lua e o ambiente adequado ao encontro amoroso, de uma cabana a uma moradia onde o requinte e o luxo se ostentam.
A letra da canção revela a claridade perfumada nos sentimentos dos amores. A atmosfera de amor, que os enamorados criam, tem luar, flores se abrindo, perfume no ar, silêncio que revela tudo correndo como os rios em direção ao mar e nossos pensamentos criando situações estáveis que constroem o lar, o refúgio que buscamos imitar do ninho de pássaros.
Quando os pensamentos inspirarem a beleza da rosa, podemos dizer que são pensamentos perfumados. O vidro de perfume acaba com o uso, mas o perfume que colocamos nos sentimentos de amor nunca termina, pois a fonte é inesgotável, isto porque colhemos do amor universal que se espalha em todas as coisas que existem.
A letra da canção também nos diz que a pureza do amor prende-nos os olhos e enaltece o elogio como forma de estímulo maior. Elogiar a beleza é criar uma atmosfera azulada onde o nosso amor flui com ternura e intensa emoção.
A música Candura finaliza num contexto social que sobressai a luta pela sobrevivência, onde o relacionamento de casais consegue ultrapassar obstáculos que influenciam o estado d'alma de quem ama e busca o amor correspondido: “E nos buscamos e nos fugimos, doces lutas simuladas, risos... timidez... Como é puro este nosso amor.”

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

A JANGADA

A música A Jangada, do compositor cearense Alberto Nepomuceno, escrita para canto e piano, inicia-se no movimento moderado. Segundo o que podemos perceber, numa linguagem poética, é uma suave melodia que sugere a ideia de ventos soprando em tempo bom, céu aberto, com nuvens esparsas, temperatura agradável, ventos moderados, num colorido suave e ameno que se desdobra como a brisa do mar.
A opinião do escritor Mário de Andrade a respeito de Alberto Nepomuceno é digna de merecido aplauso: “Dentre os compositores de sua geração, é ele o mais intimamente nacional de todos.”
Nos idos de 1894, regeu a Filarmônica de Berlim, apresentando duas obras suas (Scherzo für grosses orchester e Suite Antiga) e em 1910 esteve em Bruxelas, Genebra e Paris, realizando concertos de música de compositores brasileiros.
O canto de A Jangada tem os versos do poeta Juvenal Galeno, interpretado no mesmo ritmo da música de Alberto Nepomuceno; letra e música que se interligam na mesma beleza, revelando os movimentos do mar: jangada, ventos e o navegar.
Sobre o poeta cearense, Juvenal Galeno, o escritor Francisco Silva Nobre (1923/2007), na época em que era presidente da Federação das Academias de Letras do Brasil, comentou: “... Por isso mesmo, pôs em “A Jangada” toda a sua alma, eternizando-a com palavras simples, que todos adoram e ninguém esquece.”
A jangada está no ar, é notícia; a jangada está no mar, é o prazer do jangadeiro. O poeta e o compositor, ambos da terra dos verdes mares, unidos na poesia e na melodia, doce cantilena, transmitem a sensação de leveza da brisa no mar que se espalha na praia.
Numa linguagem simbólica, a jangada é a amiga, companheira, virgem e amante, o jangadeiro é o amigo, amante e companheiro. O cenário é o mar, a música e a poesia se falam, se tocam, se entendem e se amam de verdade.
No romance dos amores, ondas vêm, ondas vão, ondas balançam a jangada e o jangadeiro, buscando melhor posição para se orientar, lhe faz perguntas sobre a vida que ela está levando ou que ela quer levar:
“Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
Tu queres vento de terra,
ou tu queres vento do mar?”
Na segunda e na terceira estrofes, o jangadeiro penetra na intimidade das águas, nas circunstâncias que circundam a jangada e a vê sobre as ondas, sobre as oscilações que a deixam pensativa, duvidosa a bordejar.
Ele sonda a oscilação em que ela vagueia pensando no passado, nas areias da praia que a fazem encalhar, e no presente no meio do oceano, na oportunidade do amor presente que lhe dá direção no leme.
O jangadeiro gosta de vê-la adejar, como a garça, ou como a donzela, lépida e fagueira, resvalando no prado, a meditar. Dois atos muito importantes no romance de casais: o voo nos carinhos encantadores e a meditação para reter a sensação do voo que permanece no coração, no íntimo.
Se a oportunidade é a brisa que nos acaricia, o jangadeiro aprecia enternecido o vento favorável. O amor do jangadeiro pela jangada, a sua amiga, a sua virgem, a sua amante, a sua esposa, não teme as circunstâncias em que no mar surgem abismos. É virgem e amante porque a virgindade traz uma sensação do algo novo dentro de um amor exclusivo.
A vela irrequieta da jangada é sacudida e agasalhada em doces afagos, há carinhos desse amor que se revelam no coração satisfeito pelos frutos, pelos peixes recolhidos. Há um clima de contentamento, de felicidade pairando no ar, verdes ondas fagueiras embalando a jangada no mar.

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terça-feira, 17 de julho de 2012

MEU VELHO RIO

A música Meu Velho Rio, de Afonso Martinez Grau, traz recordações do Rio antigo, muito antigo mesmo. São reminiscências do passado, antes de 24 de maio 1898, data do nascimento do compositor.
A letra desta melodiosa modinha, acompanhando a atmosfera de um passado distante, é de autoria do poeta Pádua de Almeida, irmão do conhecido escritor Moacir de Almeida.
Afonso Martinez Grau pertenceu à Associação Brasileira de Imprensa, à SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Escreveu músicas de câmara, peças para canto e piano, dentre elas destacamos Suite Antiga, Prelúdios, Jogos Infinitos, para grande orquestra e executadas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, bem como muitas músicas populares, sob o pseudônimo de A. Paraguassú.
O Álbum n° 1 - Canções Líricas Brasileiras – canto e piano, publicado pela Casa Arthur Napoleão – Rio de Janeiro – 1959, traz uma foto de Afonso Martinez Grau ao lado de Beniamino Gigli, célebre cantor lírico italiano, tirada nos idos de 1947, no intervalo do recital na Escola Nacional de Música.
Segundo informação pessoal prestada pelo maestro Jonas Travassos que o acompanhou em sua tournée, o célebre tenor esteve também na Igreja de Nossa Senhora da Glória, no Outeiro da Glória, onde foi agraciado com um título honorário da Irmandade e, usando sobre a roupa as insígnias recebidas, cantou as músicas Panis Angelicus, de César Frank e Ave Maria, de Bach/Gounod.
O Rio de outros tempos está na lembrança dos leques das “sinhás”, do oratório das esquinas, e os tristes “bicos de gás”, época de serenatas, becos sem luz, luz fraca de lampiões. Os leques das “sinhás” lembravam o convívio social na apresentação de artistas franceses e italianos no Teatro Lírico Fluminense e nos saraus de canto e piano nas casas de famílias ricas.
A religiosidade se manifestava no oratório das esquinas (eram nichos onde eram colocados imagem de santos, a fim de estimular os pedestres a um momento de prece e a concentração piedosa), e em algumas mansões e chácaras existia uma capela.
Nos idos de 1854 - época em que o Banco do Brasil, em sua terceira fase (a 1ª em 1808/1829, a 2ª em 1851-1853), sob a presidência de Lisboa Serra, abre ao público suas atividades – Visconde de Mauá, o mais importante empresário do Império, teve a iniciativa de começar a fase de iluminação a gás no centro da cidade do Rio de Janeiro, substituindo a de óleo de peixe, muito fraca, quase apagada.
Naquela época, em noites de lua cheia, as pessoas ficavam em frente de suas casas em clima de festa e de amizade, onde surgiam sempre serenatas e saraus poéticos, noite adentro que se perdia pela madrugada.
Era o tempo em que se iniciava o carnaval dos bailes mascarados (bailes de máscara), divulgados em anúncios de jornal, e frequentados por artistas franceses e italianos e a elite da sociedade carioca acostumada a ler livros de autores franceses.
Outros anúncios de jornais retratavam o perfil da vida do Rio antigo, tempo do Brasil–império: leilão de escravos, aluguel de escravos, colégio para senhoritas, daguerreotypo (fotografia), papeis com pintados, pianos ingleses, superior rapé, ama de leite, coletes para senhoras (sortimento de Paris), depósito de bichos, botica homeopática, viagens em paquetes (navios a vapor).
Meu Velho Rio, de Afonso Martinez Grau, traz a atmosfera de um passado longínquo que foi suplantado para que a sociedade caminhasse em direção dos mesmos sonhos daqueles que não tiveram as facilidades do mundo moderno.

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segunda-feira, 16 de julho de 2012

O CISNE DO LAGO

Numa mensagem resumida, podemos dizer que a música O Cisne do Lago, de Abdon Milanez, inicia-se em Moderato, desdobra-se no movimento suave que vai diminuindo e crescendo, e, finaliza em pianíssimo.
O compositor Abdon Milanez (1858/1927) é autor de música sacra e de operetas. Nos idos de 1916 a 1922, substituindo o cearense Alberto Nepomuceno, esteve à frente da direção do Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ).
De autoria de Adelmar Tavares a letra da música revela uma breve história de amor ambientada no reino vegetal e no reino animal: na mais ardente paixão, um cisne branco enamorou-se da rosa crescida à margem do lago. Um belo dia, a mimosa flor foi colhida por um jovem mancebo que a ofertou a noiva. O enredo finaliza numa circunstância triste: “E dizem que o cisne branco ficou tão cheio de mágoas que uma tarde sobre as águas abriu as asas e morreu.”
Sabemos que, dentro do ciclo evolutivo, a aura dos minerais transmuta ao vegetal e daí atinge ao reino animal, chegando ao homem, na evolução anímica que está inerente à criação divina. Assim como o homem “sonha” em ser anjo, da mesma forma, os chamados animais irracionais, dentro de seu mundo próprio, “sonham” em ser homem.
A sensibilidade que desperta o amor não é característica exclusiva da natureza humana: os minerais e os vegetais recebem e transmitem, em graus quase imperceptíveis, vibrações que podem auxiliar o equilíbrio das energias que circundam o homem.
Em resumo, não é apenas o ser humano que sente, sonha, desperta e ama. Os animais e as aves de estimação recebem e dão afeto, permutando “ideias” que têm muita semelhança com os atos humanos.
Quando há um vínculo sentimental entre os seres humanos e os animais, ocorre um clima de festa, alegria no reencontro ou de tristeza na circunstância em que a saudade aparece.
A presença de uma rosa plantada junto ao lago despertou a atenção do cisne branco envolto no nadar elegante em que buscava seduzi-la e a encantava, dentro de um enlevo que pertence ao mundo da flora e da fauna. O poeta da música aumentou a ótica da percepção e revelou que havia nele uma ardente paixão, depois convertida em mágoa.
No destino do cisne o amor sofreu uma perda. Seria impossível medir a intensidade desse amor, pois até mesmo nos seres humanos não temos a capacidade de defini-lo exatamente, tal como se encontra no coração. Por isso, a paixão define o estado acerbo ou mesmo mórbido de algo que não compreendemos.
Sabemos que os animais têm condicionamento repetitivo que facilita o adestramento. Nesse sentido, pensamos como foi angustiante para o cisne repetir, inúmeras vezes, o olhar amoroso em direção da planta, sem poder ver a rosa que acalentou seus sonhos de primavera no lago.
Acreditamos que o cisne tenha sofrido uma perda no comportamento repetitivo, mas não mágoa, comum entre os seres que estão vivendo na 3ª dimensão dissociada, característica do planeta Terra que ora está ascendendo a um grau maior de evolução.
No ser humano, em confinamento da ilusão, é muito comum esse desencanto, quando há separação de casais que tinham um romance envolvido em olhares alimentados de muito amor e paixão. O destino, que fez colher a rosa e fez encaminhar os amores para outros caminhos, estimula-nos a pensar que há outras rosas perfumadas em outros jardins.

Blog  Fernando Pinheiro, escritor
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terça-feira, 10 de julho de 2012

A MORTE E A DONZELA

Na canção A Morte e a Donzela, de Schubert, o significado da morte está associado à palavra dormir. Assim, longe da ideia do vazio ou de perda, todos os dias o ser humano morre parcialmente para viver experiências profundas.
A morada do homem é o paraíso. Ele passa dezesseis horas em estado de vigília e começa a sentir cansaço. Mais algumas horas torna-se insuportável ao seu corpo físico. O sono é inexorável e, então, adormece.
Nessas horas de repouso, volta ao paraíso, onde tem suas raízes milenares. Lá encontra seus verdadeiros chefes, seus amores de laços que o tempo terreno não conta mais. Recebe, então, a orientação segura do seu viver e vê o vale da sombra e da morte um ponto minúsculo a se perder no espaço.
Os perigos que ameaçavam sua tranquilidade nessas paragens não o atingem. O voo nas esferas do paraíso, que a realidade tangível classifica como um voo nos sonhos, tem a emancipação parcial do homem que deixa uma pequena percentagem de sua alma no corpo físico.
Como a parte mais importante do homem é a força que o envolve, ele precisa diariamente se alimentar das energias cósmicas que se encontram em regiões não contaminadas.
Nessas paragens de comovente beleza, vê a realidade das circunstâncias que une as pessoas; os motivos estabelecendo ocorrências em que está envolvido e as razões por que algo lhe desperta a atenção.
Diante dos fatos que lhe trazem a explicação dos enigmas, que até antes não os compreendia, vê em tudo uma ligação promovendo o equilíbrio daquilo que estava oscilante.
No longo percurso da sua caminhada, o homem tem necessidade de confirmar a manifestação do ser etéreo, que ele é, em todos os seus gestos e atitudes, pois nada acontece no universo sem os ditames de uma lei maior.
Na incompreensão daqueles que veem os transtornos saindo das mãos dos opressores, confirmamos que há sempre um vínculo unindo as pessoas, independente de circunstâncias agradáveis ou não.
O universo inteiro está mergulhado em movimento. As estrelas viajam no espaço recebendo e espalhando luzes de sóis que se multiplicam da noite para o dia e até mesmo num piscar de olhos. As galáxias e as nebulosas estendem cenários em viagens que não terminam nunca.
São tão pequeninos os embaraços humanos se compararmos com as possibilidades que estão à disposição de todos para se engrandecerem diante do cenário da vida cósmica em movimento.
Precisamos entender, de vez, que não pertencemos à Terra, do mesmo modo que o mergulhador de plataforma submarina reconhece que não mora no fundo do mar. Estamos de passagem em missão peculiar às características do ambiente onde vivemos.
Como temos ainda laços com o planeta, que se estendem pela incompreensão daqueles que se decepcionaram com os nossos gestos, retidos nas noites do tempo, precisamos aproveitar a oportunidade para demonstrar a eles o nosso amor, em silêncio ou nas palavras.
Divulguemos aos tristes que, na música a morte é vida, como a crisálida que desperta a borboleta. A Morte e a Donzela, de Schubert, Pavana para uma princesa morta, de Ravel, O Cisne de Tuonela, de Sibelius, e tantas outras expressões de beleza transcendente, são momentos que retiram a ressaca do homem a caminho da angelitude e o envolvem com a roupagem das estrelas.
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segunda-feira, 9 de julho de 2012

NOTURNOS

A música de Chopin é o cânone entre as rosas. Os Noturnos lembram as noites, as noites de poesia e de música que se derramam do luar, do luar da lua azul. Inspirado nesta beleza, transcrevemos o Nocturne in C # minor para o banner do website www.fernandopinheirobb.com.br.
Quando a lua cheia aparece no céu pela segunda vez, no mesmo mês, chamamos de lua azul. Esse fenômeno ocorre de quatro em quatro décadas. É um espaço de tempo em que se consomem muitas vidas humanas.
É uma oportunidade que o universo nos concede para nos lembrar da luz de prata do luar, da suavidade que se vestem as noites escolhidas. Cantada em todos os tempos, a lua derrama claridade suave àqueles que buscam a inspiração, a ternura que suaviza o rigor do caminhar.
É uma senhora musa das noites que se iluminam. Nesse clima suave e enternecido, o homem faz o mergulho em suas origens e busca tirar de lá o sustento de suas necessidades existenciais. Nelas vê seus sonhos adormecidos e os planos que o imortalizarão em feitos de grandeza.
Sente, então, vontade de acordar para o seu mundo interno, ser original, ler e respeitar os caminhos que se cruzam, e revelar-se sem influência das ideias que distorcem a sua realidade. Caminhar, apenas caminhar. O tempo revela as oportunidades. De etapa em etapa, vai-se formando tudo aquilo que idealizamos.
O que nos parece fracasso é a prova do que pensamos ser verdade aqueles instantes em que deixamos a imaginação fugir dos sonhos.
Retomamos a certeza do sucesso pessoal, sublimando paixões que não foram resolvidas e que nos ajudam a observar melhor o caminho por onde passamos. Nessa movimentação de energias, abrem-se portas de novos ambientes a serem preenchidos como fitas virgens que viram mensagens.
A revisão dos sonhos que seguiram caminhos desconhecidos lembra-nos muito do que ocorre na lua azul. É a mesma lua cheia, repetida nas circunstâncias em que talvez deixamos de observá-la.
Assim como a cadeira vazia, o lenço molhado de lágrimas, os presentes devolvidos são marcas que nos fazem pensar, a lua cheia repetida no céu é a demonstração de carinho do universo que nos cobre mais uma vez de claridade suave a nos estimular a sermos o que verdadeiramente somos.
Nos ciclos do tempo em que a lua aparece, ficamos a imaginar a humanidade compreendendo o que chama de dor e alegria, sublimando emoções que mudam de estágios até se converterem em estados permanentes que revelam suas origens.
A última lua azul do milênio foi vista por milhões de pessoas que foram ver a chegada do ano de 1991 nas praias, nas estepes russas, nas savanas africanas, do Ocidente ao Oriente, onde o planeta inteiro ficou mais azul, mais azul.
A nova era vem surgindo com forças que despertam as ideias solidárias do viver, estimulando os movimentos em prol da ecologia, fazendo mais permeáveis as fronteiras para enaltecer a canção Imagine, de John Lenon que é mais real do que muitos imaginam.
Antes que venha a próxima lua azul, no ano de 2031 , em que a humanidade será outra, podemos adiantar que, em outubro de 2012, o planeta Elenin, que fez destroços na superfície do Sol de nosso sistema solar, terá a maior aproximação com a Terra. Este será um evento astrológico com repercussão no nosso planeta.
Atualmente, já existem 2 humanidades, a que vive em consciência unitária e a que vive em consciência dissociada, a consciência planetária que está indo embora. Vivendo em 4 pilares: simplicidade, humildade, transparência e alegria, podemos, pois este é o nosso caminho, ascender à consciência unitária, abandonando-nos à luz,
A lua azul está presente nas mudanças do ciclo. Quando surgir outra vez na Terra, reafirmamos, a humanidade será outra. Tudo que tira a visão da beleza dos jardins paradisíacos será removido. Os semeadores sabem que há flores se abrindo. A música de Chopin é apenas a ressonância, o cânone entre as rosas.
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PORTO DE TÚNIS

Em apenas três minutos temos um panorama cultural da Tunísia, revelado no impressionismo de Jacques Ibert, compositor francês, que nos apresenta, dentro do ciclo Escalas, Porto de Túnis, fazendo lembrar os ventos nas tamareiras, os mercadores do cais, as mulheres vestidas de véus que encobrem o rosto para deixarem nos homens o mistério e ainda nos lembram os versos de Chabbi, poeta tunisiano:
“Lorsqu’un jour un peuple veut la vie force est, pour le destin, de répondre” (“Quando um povo quer viver, é forçoso que o destino o atenda”).
O compositor francês deixou importantes contribuições em todos os gêneros da composição clássica, excetuando-se oratórios. Livre de influências compulsórias, plasmou formas de beleza singular, numa flexibilidade que dá ao impressionismo dimensões maiores.
A música, que descortina a atmosfera desse porto do Mediterrâneo, consegue abafar as ressonâncias das ruínas de Cartago, localizadas a poucos quilômetros da capital tunisiana, onde há recordações de anfiteatros, casas de banho (termas), escravos e soldados romanos.
A plasticidade do impressionismo na pintura ou na música revela efeitos de luz ou de sons que se espalham na tela ou na harmonia musical. O estilo transforma a ideia, escondida nos sonhos, num corpo tangível.
Numa visão real desta escola de arte, foi vista por milhares de pessoas, numa noite de verão carioca, a lua quase cheia derramando claridade suave em rajadas de chuva. O luar sobre os pingos d’água era a placidez acima dos ventos e das folhas de árvores que se agitavam.
Assim como os galhos de árvores dançavam ao sabor dos ventos, a lua parecia transmitir sonoridade suave como o adágio dos concertos, o prelúdio das sinfonias, as serenatas ou os poemas sinfônicos dos grandes compositores.
A música das esferas resplandecentes derramava-se sobre o planeta conturbado pela agitação ruidosa de todos que não sabem por onde caminhar, perdidos na noite, que transpõem para dentro deles mesmos a escuridão.
Bastaria apenas um olhar, numa visão interna ou externa como naquela noite enluarada e suada de pingos d’água, para se ver um azul limpo e a claridade que nos leva ao impressionismo que os pintores e os compositores clássicos sentiram.
Quantos convites a natureza nos oferece para recompor o nosso estado de espírito ou estado emocional como preferem todos aqueles que estão mergulhados na emoção, sem aceitar ainda a realidade de um estágio evolutivo plenamente consciente e eterno!
A luz, que dá cor, brilho e imagens nas artes plásticas e na própria música, inspira-nos em pensamentos capazes de desvanecer, um pouco, a atmosfera sombria onde está mergulhado o planeta.
É o fenômeno da crisálida que está passando a Terra, a atmosfera sombria é a visão da lagarta, e o novo renascer de luz é a visão da borboleta que está nascendo. É o planeta sacralizado.
O ciclo Escalas que é, ao mesmo tempo, o tempo em escalas musicais e escalas de viagens, transmite a atmosfera de três portos do Mediterrâneo, sendo que o de Túnis tem a ressonância do comércio ambulante que exporta a beleza do país em lembranças que contêm um olhar contemplativo ou um adeus nostálgico.
Porto de Túnis desperta-nos a sensibilidade, sempre nos oferecendo abrigo depois das travessias dos oceanos desta vida. Quem sabe se não foi esta lua sobre a chuva que inspirou Jacques Ibert a compor a música que traz as imagens fluídicas do impressionismo?
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