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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O BEIJO

      Os beija-flores beijam as flores, removendo pólens que se espalham no ar. A fecundação do reino vegetal nasce nesses berços que produzem sementes.


        A dança dos beija-flores tem o ritmo vibrante do balé clássico. As vibrações de asas são acordes que dão impulsos aos movimentos da composição musical.


        O cantar dos pássaros envolve a todos num doce enlevo que se engrandece na admiração dos tenores e dos sopranos (mulheres) que vivem nos cenários da cena lírica.


        O canto, a dança e o beijo estão em todos os reinos da natureza, estimulando o processo criativo das espécies. Os beija-flores namoram as flores. Há um perfume no ar.


        Assim acontece no reino humano. As mulheres dão um banho de sedução nos olhos de quem aprecia o beijo nascendo como nascem as flores.


        Muitas vidas num só vida conhecemos mulheres que beijam revelando as vibrações incrustadas no passado espiritual. E assim vêm as ciganas, as odaliscas, princesas e plebeias, mulheres brejeiras, mulheres asiáticas, mulheres das arábias e mulheres dos trópicos e ainda tem mais mulheres para se ver. 


        O clima do beijo é um cântico de exaltação à vida como o sacerdote levanta a taça numa celebração do momento de pura magia em que o sublime peregrino transformou a água em vinho numa festa que lembra a dança, o canto e o beijo dos amores.


        Nesse enlevo que parece embriagar, o coração bate mais forte, o sangue corre vibrando pelas veias agitando músculos é porque é a alma que está vibrando. Nos instantes em que o beijo nasce é preciso ter muito cuidado com a direção dos impulsos que mais parecem carros em movimento que necessitam de mãos habilidosas.


        Tudo se agita nos impulsos da atração. Beija-flores ao redor das flores, pássaros beliscando frutos que caem para alimentar seres que se reproduzem nos solos, e há ainda os pássaros cantores que reúnem a dança e o beijo num mesmo instante.


        O beijo é o prelúdio da música, daquele momento em que o pássaro acabou de cantar e ficou dentro de nós a suavidade que tentamos recriá-la na nossa imaginação ou é ainda o olhar que nos envolve nos carinhos de quem nos ama. 


        O Beijo é de Smetana levado para a cena lírica, esta grande ópera. A música mais conhecida dele é O Moldava que tivemos a oportunidade de comentar. Ele faz parte da tríade de compositores que escreveram músicas, em plena surdez: Beethoven, Smetana e Fauré.


        A música está ligada aos beijos, aos pássaros que cantam dando lições aos tenores e às danças que criam fantasias debaixo dos véus.


        O homem não pode classificar todos os beijos dentro da sensualidade que possui uma finalidade muito importante na aproximação dos seres que se procriam, como também não pode resumir todos os cantos dos pássaros e a composição musical dos clássicos como som de apito de índio.


        O beijo está ligado aos impulsos do coração que possui níveis diferenciados de sublimação, variando de pessoa-a-pessoa dentro ciclo evolutivo em que se encontra.


        O amor é um oceano onde todos os sentimentos são rios e afluentes, embora haja lagoas e pântanos que se isolam da correnteza.


        O encontro dos rios nos mares e os filetes de água que saem das lagoas e dos pântanos em direção dos rios são beijos de forças comuns que têm o mesmo destino. Nas cachoeiras o beijo vem borbulhante e nos amores a revelação de seus estados d´alma.

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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

BELEZA DOS LÍRIOS

        A sabedoria se espalha em gestos desconhecidos. Há envolvimento de causas remotas, embora encobertas pelo tempo, a anunciar ligações de interesses que se completam.

        As atividades humanas têm caráter social, mesmo que estejam envolvidas em circunstâncias embaraçosas que voltam sem as impurezas maiores.


        As deficiências humanas têm marcas deixadas na trajetória do passado. Aquilo que está incompleto volta para se completar, em circunstâncias que exigem sacrifícios.


        É por isso que vemos o olhar em busca da ternura, o desejo de adquirir bens para sustentar quem foi desconsiderado pela pressa de fugir, a solidão valorizando as horas que teriam os namorados.

        Nos vales da sombra, pessoas tateiam com as mãos aquilo que os olhos não podem ver. Há uma beleza dos lírios criando formas ideoplásticas que explicam a vida.

        Código sublime de interpretação, envolvimento com as nascentes do pensamento criativo, ligação com a essência que transcende os milênios, horizonte que abre novos amanheceres - a cegueira dos olhos pode propiciar.


        Alimentado pelos preconceitos que o isolam do convívio da fraternidade, o homem nessas circunstâncias ainda não pode ver o quanto se reveste de grandiosidade tudo aquilo que os chamados cegos veem.


        Num mundo cercado de tantas deficiências, onde o homicídio ainda existe, é natural que não nos sintamos dispostos a ver aquilo que o tempo levará para outros vales da sombra.


        Não nos interessa mais ver os desencantos que as televisões, rádios e jornais nos apresentam nem ouvir os comentários desses desencantos que promovem o medo, alimento do mundo dissociado, como meio de nos controlar. Libertemo-nos dessa escravidão mental.


        Estamos imantados no giro da luz que vem das estrelas, das ideias que elucidam os enigmas do caminhar, da ternura que passam as mulheres nos sorrisos.


        Há beija-flores voando alto, em árvores que crescem tanto, como a buscar novas flores para o beijo, as carícias que espalham o pólen reproduzindo a vida. Há também o vento que o acompanha envolvendo em doces afagos.


        A vida cresce em todos os gestos, se amplia em horizontes insondáveis e reúne a lacuna ao seu preenchimento adequado, recompondo a harmonia.

        Os ventos anunciam a mudança dos climas, as rosas o perfume, os pássaros o cântico de brejeirice.


        Para desmanchar as horas tensas deveríamos ser um pouco passarinho, um menino-passarinho como nos fala a canção de Luís Vieira, com vontade de voar, que ele a apresentou, pela primeira vez, nos idos de 1962, ao ensejo das comemorações do sesquicentenário da cidade de São Luís do Maranhão.


        As energias que envolvem o homem, tanto do seu mundo íntimo como das esferas que estão em outras dimensões, clareiam o seu caminho mostrando suas lacunas em recomposição.


        Miríades de cores e nuances viajam em caravanas infindáveis acompanhando os mundos que as recebem e distribuem nos lugares vazios. Para demonstrar uma dessas viagens, a sonda espacial Pioneer II comprovou que o planeta Júpiter emite quase o triplo de quantidade de energia que recebe do Sol.


        O pensamento que sai das inteligências em processo de evolução, está em toda parte, ora em corpos densos, ora em corpos sutis, plasmando a beleza da luz.


        A energia que sai das flores, dos pássaros, dos rios e de todo reino vegetal e animal está imantada nas luzes que giram as galáxias infinitas.

        O pensamento do poeta nas estrelas absorve claridade que dissipa vibrações oscilantes do mundo em renovação em que vive. Nasce novas disposições e tarefas de sacrifício e a certeza de que a harmonia do Cosmos o envolverá sempre.

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

CAMINHOS COMUNS

           O encanto da primeira hora surge revelando os laços afetivos. O encontro de pessoas ou a chegada de oportunidade para vivenciarmos uma experiência tem raízes nos sonhos e nos ideais que almejamos.

        O amor à primeira vista se amplia em tudo que vem fazer parte de nossa vida. Ligações afetivas, vínculos de trabalho e convívio social se misturam intensamente revelando nossas necessidades que se completam com as daquelas pessoas que o destino nos reservou o espaço em comum.


        Passam-se os dias, passam-se as circunstâncias em aprendizado difícil e vêm sempre novas perspectivas de melhor posicionamento na vida como a luz do sol surgindo após a chuva.

        As situações que nos parecem embaraçosas estimula-nos a preencher o espaço vazio deixado por aqueles que buscam a solução dos problemas em outras direções.

        A certeza da vitória, num tempo em que não podemos medir, nos dá um alento que tem repercussão naqueles que estão ligados aos nossos interesses maiores.

O importante é conservar o clima confiante porque aquilo que não tem correspondência com o nosso mundo íntimo não pode prosperar. O desvio a caminhos desconhecidos será o curso natural que terá de fazer.

        Somos impelidos a circunstâncias difíceis para compor espaços que reúnem pessoas que vêm nos ajudar transmitindo aquilo que muitos chamam de problema.


        A recomposição de aspectos e conteúdos faz parte do movimento renovador da natureza, que atua em tudo que existe. O homem caminha para um reino onde a evolução é mais progressiva.


        As dores e tristeza, desencantos e desânimo são situações embaraçosas que precisam ser eliminadas completamente por aqueles que começam a entender a finalidade da vida.


        Participamos do momento presente em que o planeta está num clima de confusão e amargor porque os laços do destino nos prendem com força poderosa. São os estertores agônicos da consciência dissociada planetária que está indo embora.


        Amamos o destino que elegemos por vontade própria, amamos o caminho por onde andamos, amamos as pessoas que nos oferecem a oportunidade de fazer algo, compreendendo que sem elas teríamos um vazio muito grande.

        E nas voltas que o mundo dá, nos reencontros dos amores que foram à primeira vista, em algum lugar do passado, temos um doce encanto que anima nosso viver.

        Quando identificamos as ligações que nos ajudam a caminhar confiantes num mundo melhor, onde o paraíso deixará de ser apenas um sonho, a alegria íntima, que sentimos, dissolverá toda onda devastadora que surge nos ambientes por onde passamos.


        Quando vemos o resultado do nosso trabalho ganhar ressonâncias que estimulam as pessoas a se sentirem confiantes e alegres pela vida, temos a certeza de que irão diminuir os casos onde a dor será generalizada.

        Se persistirem a desolação e o amargor será bem longe de nós onde não pudemos alcançar. Mas nesses lugares outros recursos estarão à disposição daqueles que buscarem a convivência pacífica nos caminhos comuns. 
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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A BELEZA DE HELENA

           Na tragédia grega, encenada na Antiguidade, havia um sentido vertical nas aspirações humanas. O homem grego daquela época ia ao teatro para buscar o belo, aquilo que permanece eterno.

        Hoje, o homem moderno assiste aos espetáculos teatrais apenas para se distrair, esquecer o lado trágico do seu proceder que o acompanha aonde ele for.


        Sabemos que essa fuga lhe serve como analgésico que amortece a dor enquanto durar o espetáculo.       
        Depois vem a realidade que o envolve completamente.
O teatro, por ser uma das vertentes do comportamento humano, também sofre influência da época em que atua.

        Como os meios de comunicação veiculam a desgraça, a degradação moral ao noticiário comum dos dias atuais, o público de teatro igualmente espera emoções fortes que o entorpeça naquilo que tem de mais sagrado.

        A apresentação maior, na televisão brasileira, desse entorpecimento tem sido a série Tela Quente que exibiu, em 6 de agosto de 2012, o filme intitulado 2012, o fim do mundo deles, unicamente deles e de quem dá peso e referência ao medo.

        Não é apenas uma rede de televisão, mas o planeta inteiro está dominado pelo mito de Prometeu, a falsificação do planeta tem ocorrido através desse mito.

        A densa consciência planetária dissociada está indo embora, com a chegada da consciência unitária, caracterizada pela separação do joio e do trigo, nesta transição planetária em que vivemos.

        O teatro, a música, as artes sempre foram indicadores de caminho. Em suas nascentes, na pureza de cristal que os revelava, tinham a direção que descortinava horizontes sublimes.

        O romance burguês, o personagem que se reveste de virtude para derrotar o mal, num padrão de ética questionável, parece desfalecer cada vez mais.

        Numa roupagem atualizada para atender as exigências do público delirante, o herói surge com armas de destruição mais sofisticadas e, no clima de terror, sem nenhuma responsabilidade para o futuro.

        A representação dos talentos não pode ser responsabilizada pelo declínio das aspirações humanas que buscam informações que lhe façam esquecer a realidade viva dos dias de hoje.

       Os tóxicos, os vícios de toda embriaguez, a ideia fixa de posse sobre pessoas e coisas são caminhos paralelos que conduzem ao mesmo lugar.

        A vida nos chama, queiramos ou não, a participar da grande encenação teatral nos palcos de nossas atividades, onde somos protagonistas revelando papeis importantes para que o cenário de comovente beleza seja a aspiração de todos.

        Muitos permanecem imantados ao ruído mais forte de vozes em delírio como se a convicção da realidade tivesse que ser despertada apenas pelos meios externos.

        O silêncio que propicia a identificação dos valores eternos tem maior valor do que as palavras tumultuadas que seguem várias direções, se perdendo como as fumaças em aspiral.

        A repercussão do pensamento grego se faz presente nos dias atuais, ressoando os apelos das vozes do Olimpo e do oráculo de Delfos que, por terem um sentido universal, permanecem atualizados.

        É claro que esses deuses que se comunicavam com os filósofos e pitonisas daquela época estavam ainda ligados à atmosfera espiritual da Terra que se move entre o conhecido e o desconhecido.

        A mitologia grega, com seus heróis e mitos, sempre foi a verdade revelada em véus de mistério, encobrindo a beleza da vida como foi a beleza de Helena, a mulher de Tróia.

        Mas, hoje em dia, a verdade que repercute como brilho de estrelas vem das parábolas, dos gestos de amor a humanidade daquele que dividiu a História, antes e depois dele.

        Esse herói insuperável que valorizou as crianças, os enfermos, os ricos e pobres, encontrou em Madalena a mesma beleza de Helena cercada pela atenção dos homens.

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domingo, 12 de agosto de 2012

INTERIOR

    Muito  tranquilo,  suave,  medianamente  forte,  a  tempo  e pianíssimo são os principais movimentos da música       Interior destinada para canto e piano, de autoria de Helza   Camêu (1903/1995), escrita em 1968, com a letra de     Onestaldo  de  Pennafort.

        A compositora distinguida, em 1936, com o 2° lugar no concurso para quarteto de cordas promovido pelo Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, e, com a apresentação do  poema sinfônico Suplício de Felipe dos Santos, alcançou o 1°  lugar no concurso realizado, nos idos de 1944, pela Orquestra  Sinfônica  Brasileira.

        Helza Camêu, compositora de obras românticas,    escreveu músicas de câmara, instrumental e vocal, entre as quais, destacamos: Amar, p/canto e piano, 1942; Ao mar, opus 8, p/canto e piano, 1941; Eterna incógnita, p/canto e piano, 1928, Silêncio p/ canto e piano, 1934, sendo que o original da partitura da música Interior, dedicada ao poeta Onestaldo Pennafort, faz parte do acervo da Academia de Letras dos  Funcionários  do  Banco  do  Brasil. 

        O  início  da  letra  da  música  Interior  é  uma  entrega  de presente:

“Eu te trago, ainda frescas e orvalhadas da noite e do silêncio das estradas ermas, por onde vim com o pensamento cheio de ti e de arrependimento, estas     flores  silvestres...”

        Melhor do que mandar flores é entregá-las à mulher    amada, principalmente quando estão frescas e orvalhadas    pela noite e pelo silêncio das estradas ermas por onde o poeta   passou.       

        Há todo um ritual, uma cerimônia, o colher as flores  silvestres, envolvendo-as com pensamentos de amor, que    serão tocadas pelas mãos da mulher amada, guardadas       febril e ansiosamente, por ele, nos sonhos de espera e de  arrependimento,  revestidos  de  ternura.

        Hoje, em dia, temos o uso do cartão no envio de flores       à pessoa amada. Mas, no passado ainda não distante, o remetente confiava mais no clima de amor manifestado:      eram pensamentos que falavam, sem palavras, como bocas  entreabertas à espera do beijo, no perfume forte das flores     que  a  sua  amada  iria  aspirar.

        As flores iriam lembrar a noite harmoniosa que cobriu,   com  o  manto  das estrelas, o esquecimento e  fez surgir o  silêncio  e  as  horas  interiores  que  falam  de  ternura.

        A  esperança  cresce  quando  o  poeta  pensa  que  ela,      ao  aspirar  as  flores,  irá  ouvir  um  farfalhar  de  folhas,  um   zumbido de asas, uma sensação gostosa de água fresca e       um olhar suave que perdoa. Era, sem dúvida, um momento     de  reconciliação,  tão  difícil  nos  momentos  atuais.
 

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sábado, 11 de agosto de 2012

E QUANDO O AMOR CHEGAR

             Com sugestão impressionista no compasso 4/4, finalizando em pianíssimo, a música E Quando o Amor       Chegar, de Guerra Peixe, composta em 06 de abril de 1979,     foi  destinada  para  canto  e  piano. 

        A letra é de autoria de Sônia Maria Vieira que nos      revela a sincronia de um ao outro, navegando amplamente   sem medo, descobrindo “recônditas grutas onde guardas teus mais íntimos tesouros e lá semear meu eu, com toda a     doçura  de  que  sou  capaz.”

        A poesia de Sônia Maria Vieira, que a música revela,     tem o mesmo sentido lancetado por aventuras no Canto de Sereia, de Raquel Naveira, professora de Literatura Latina        na Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande-MS (in    Casa de Tecla – poemas – 1998 – Escrituras Editora – São  Paulo – SP. Em maio/1999, a autora dedicou–nos um exemplar autografado  e  os  dizeres  “com  muita  honra  estas  teclas ):

                “Vem,  meu  bravo,

                Venceste  Troia

                Com  tua  astúcia,

                Descansa  em  minha  ilha,

                Entre  penhascos  negros

                E  precipícios  de espumas.”

        Navegar, amplamente, a velas pandas, através do corpo    da pessoa amada de que nos fala a canção, é criar fantasias  que podem estimular um relacionamento ou mergulhar           no abismo se o amor não for correspondido. Aliás, é no relacionamento íntimo que é decidido o destino de uma vida      a  dois.

        Descobrir recônditas grutas, significa ter acesso ao  segredo  que  faz  revelar  toda  a  alma  feminina  guardada, por  mil  chaves  secretas,  e  aberta  ao  amor,  que  vibra flamejante,  revelado  em  múltiplos  aspectos,  pelo  destino.

        Um dos acessos ao recôndito segredo feminino é     revelado na hora íntima do beijo, quando a mulher entrega     no  olhar  o  encantamento  que  denota  suas  origens  no passado   espiritual   em   que   sua   alma   está   mergulhada. Encantos  surgem  em  profusão,  o  próprio  olhar  tem  a  luz da  energia   das  atividades  que  o  amor  estimula.    

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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

SETE LÍRICAS

    A música Sete Líricas, de Francisco Mignone foi escrita,  em  27  de  dezembro  de  1966,  na cidade  do  Rio  de  Janeiro.

        O ciclo das Sete Líricas tem um roteiro estabelecendo  variações sobre um tema esplendidamente lírico na música       e intensamente rico na expressão poética de Oneyda    Alvarenga (1911/1984), membro da Academia Brasileira de  Música, que faz par, com Francisco Mignone, na autoria         do  referido  ciclo.

         Na primeira lírica, a letra expõe sentimentos de amor     da  mulher  que  revela  o  seu  desejo  de  cair  na   vida  dele     como um pingo de chuva numa flor e ser um vago perfume     de  rosas  que  entra  por  uma   janela   escancarada. 

       Ela  percebeu  o   interesse  de  seu  amado  pelo  perfume  dela,  embriagando-o.  O  recato  feminino  faz  com  que  ela  o  sugere  algo  diferente  em  seu  coração:  “antes  fechasses  a janela  e  esquecesses  o  rosal  em  florescência...”  A  música   tem  o  movimento  muito  calmo,  porém  molto.

        Na  segunda  e  terceira  líricas,  ela  o  esperou  na  hora  silenciosa,  estendendo-lhe  os  braços,  sentindo  a  leveza  em  sua boca, entreaberta para o beijo que a distância lhe rouba,    e percebe a ternura que está criando num momento de   solidão. Ela quisera ter o voo da andorinha e se imagina  voando para alcançar o céu, a mocidade, a vida! Na música       o  movimento  andantino,  com  lassidão.

       Na quarta e quinta líricas, ela sentiu, no voo imaginário,     o vento arrepiando volúpias pelos ares, braços que a      enlaçam sem beijos que a beijassem, são amores dos      sentidos que a alma ainda  não  sente  em  profundidade,   falta-lhe  o  calor  como  no  coração  das  andorinhas  cortando  as nuvens. Os movimentos da música: um pouco solene  (quarta)  e  allegro  vertiginoso  (quinta). 

        Surge a sexta lírica. Passa o tempo, passam as   desilusões, os amores desfeitos, o vento foi rasgado. Ela, queimada pelo sol – experiências acumuladas de amores  vividos  e  sonhados  –,  corre  impelida  pelo  novo  ritmo  que  sente, harmonia de seus vinte anos revestindo-lhe o ser,  correndo  até  cair  sob a  luz  do  sol  e  do  perfume  que  a  faz  sentir  mais  doce  e terna.  O  movimento  musical  é  agitado    e  com  grande  entusiasmo.

         No último ciclo das Sete Líricas, o pensamento da    mulher amada voa a esferas sublimadas pelo amor e vê as  paisagens  em  seu  ser  mais  profundo  serem  transformadas    em recantos paradisíacos, onde o amor tem uma conotação     de grandeza mais elevada que as aspirações humanas que ainda estão na 3ª dimensão dissociada. O movimento da   sétima  lírica  é  tranquilamente,  pianíssimo,  e  molto  legato.

        Agora,  não  mais  existe  a  solidão,  a  espera,   cheia       de ternura, por seu amado. O sentido que ora vigora e        revigora,  nesta  hora,  é  o  da  unidade,  conjugada  ao  novo  ritmo  do  mundo.  Ela  sente  vontade  de  abraçar  homens  e   coisas  num  mesmo  abraço  irmão!


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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

SAMBA-LE-LÊ

         Destinada para coro misto a 4 vozes (solo, contralto, tenor e barítono) a música Samba–Le–Lê, de Francisco   Mignone,  foi  escrita  em  1951.

       Sem mencionar as repetições da palavra “Samba-le-lê”  contidas no início, no meio e no final da canção, a letra da  música,  é  de  autoria  de  Wilson  W.  Rodrigues  (1916/1979), patrono da Cadeira n° 50 da Academia de Letras dos Funcionários  do  Banco  do  Brasil.

        Nas   vozes   do   canto   é   apresentado   um   pedido  à  baiana  para  participar  do  jogo  da  sedução.  Samba-le-lê   é  a  expressão  mais  cantada  por  todos  os  participantes  do   coro.

        O  solista  começa  entoando  o  nome-título  Samba-le-lê, durante 6 vezes e, no ritual do vestir o traje feminino típico     da Bahia, faz o pedido à baiana para deixar amarrar a       trunfa (turbante), calçar as sandálias e botar o colar. Há        um  clima  de  preparação  para  a  dança.  No  meio  e  no  final  da  canção:  samba-le-lê,  samba-le-lê,  samba-le-lê,  samba-le-lê,  samba-le-lê,  samba-le-lê.

        Seguindo a mesma trajetória, início, meio e fim do      canto  em  que  são  entoadas  as  6  repetições  do  nome- título  Samba-le-lê,  contidas  nas  partes  do  solista,  do  tenor  e do barítono, o contralto entra em cena fraseando a     tessitura:  “ó  baiana,  ó  baiana,  ó  baiana,  uê!  deixa  botar       mau  olhado,  deixa  fazer  meu  feitiço,  deixa  ser  teu bem-querer,  até  a  aurora  nascer”.             

        Dentro do clima de amor, as palavras ganham o      colorido  que  o  sentimento  reveste,  assim  um  mau  olhado  pode ser um bom olhado, um feitiço um encantamento     porque  o  personagem  da  letra  quer  ser,  até  o  sol  raiar,  o  bem-querer  da  baiana.

        As palavras do tenor invertem o ritual do solista. Há um   clima mais íntimo, possivelmente após a dança ou mesmo        no  meio, em  que  o  desejo  sexual  é  claramente  manifestado:  “Ó baiana, ó baiana, ó baiana, deixa tirar tua bata, deixa    pegar  nos  teus  seios,  deixa  teu  negro  sorrir,  deixa  ao  teu   lado  dormir.”

        É  uma  forte  revelação  de  amor,  sem  dúvida  deve    ter  existido  por  parte  da  mulher  amada  uma   troca  do desejo em gestos femininos que seduzem. Basta um olhar   derramado   de  ternura,  um  suave  meneio  de  seios,  um  penteado   gracioso,   um    mexer   de   mãos   nos   cabelos  compridos,  um  encolher  de  ombros,  um  suspiro,  um  gesto  que  oferece  os  lábios  vermelhos,  e  a  conquista  se  completa.

        Dentro da bata os seios ficam ao sabor da respiração      que se revela no estado emocional: trêmula como se toda      uma fortaleza estivesse prestes a cair, os condicionamentos   que fizeram a mulher se reprimir, nesses momentos parecem  nulos. O importante é a entrega, o doar-se. Meneios de seios    se agitam nos movimentos da ansiedade, como também são   sutis quando ela caminha pela rua. O decote da roupa   feminina  decora  sonhos  masculinos.

        A participação do barítono revela uma declaração de   amor revestida do pedido de carinhos não tão íntimo como  a  do tenor: tirar o turbante, pegar nos pés (hoje uma      expressão largamente usada na perseguição amorosa), beijar    o colo. Poeticamente, são doces afagos que promovem a   ternura  e  a  intimidade  maior  que  está  a  caminho.


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