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terça-feira, 16 de outubro de 2012

CARMINA BURANA

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     O impacto brusco serve para despertar a alma adormecida. Antigamente, o poço de cobras e o eletrochoque eram muito usados na cura dos doentes mentais e, ainda hoje, a decepção amarga leva-nos a destruir os ídolos que construímos.

         Carmina Burana, a obra-prima do compositor Carl Orff, começa em cadências marciais que se tornam suaves, num lindo adágio, depois prossegue deliberadamente anti-romântica, quase sem harmonia, baseada em força rítmica de exuberante alegria, com fortes traços de sofisticação e erotismo.

         O impacto é flagrante e sentimos vontade de não mais continuar ouvindo a música. Mas, para aqueles que precisam ser despertados de todas as letargias, este é um remédio eficaz. É uma terapia de doses fortes, de grande valor.

         Numa linda tarde de domingo, primavera carioca, no Teatro Galeria, o Dr. Luiz George de Oliveira Bello, autor do Prefácio do best-sellers Minutos de Sabedoria, de Carlos Torres Pastorino, fazendo exposição de uma bela palestra, menciona que, durante dez milênios de civilização, a humanidade sempre buscou levar a vida numa brincadeira, pois a emoção estava à frente da inteligência norteando os comportamentos humanos no lar, nas oficinas de trabalho, nos  templos, nos palácios de governo.

         Homens e mulheres, prossegue o renomado médico, brincando de marido e esposa, professores e alunos apostando brincadeiras pessoais, multidões envolvidas em apostas coletivas para buscar a sorte, figuras escolhidas pelo povo, num clima de total emoção, brincando de governantes, levando milhões de pessoas à miséria, ao confronto de armas como acontece em muitos países do mundo.

         Os meios de comunicação de massa levam aos lares programas de audiência que têm aceitação imediata do público. Faz sucesso tudo aquilo que está ligado à emoção.

      A civilização egípcia, onde a Grécia e Israel foram buscar conhecimentos que se espalharam pela atual civilização, já possuía um sentido sério sobre a vida humana. A palavra  sagrada Deus, no reinado de Aknaton (Amenófis IV), era entendida inteligentemente como o passado, o presente e o futuro, em outras palavras era o infinito (tempo, espaço). 

         Depois, a humanidade conheceu duas grandes revelações de sabedoria, quando surgiu Moisés, no aprendizado do monoteísmo de Aknaton, e os profetas e, num momento inigualável a qualquer outro estágio  evolutivo, a presença de Jesus para revelar ao mundo o caminho, a verdade e a vida.

           Mesmo assim, com toda essa bagagem rica de conhecimentos, a maioria da humanidade, preferiu mergulhar nas ondas da emoção do que refletir, inteligentemente,  acerca  do  seu  caminhar.

       Acostumada, por tradição, a adorar ídolos e deuses desconhecidos, tem agora a concepção de grandeza divina apenas num anjo, num profeta, nos santos, sem abranger a  ideia do universo infinito.

         Esse reflexo espiritual se espalha em toda a humanidade. Ama-se  alguém  por ele ser do partido, da família, da religião ou, ainda, porque lhe faz demonstrações de solidariedade. É  um grande avanço, mas isto não se completa.

        Acrescenta o ilustre conferencista que estamos vivendo o momento de sermos felizes para sempre ou chorarmos até encher lagos de lágrimas em outros vales da morte como aconteceu com os fundadores da civilização egípcia, expulsos de outro planeta que se transformou num recanto do paraíso [ARMOND, 1990].

         Visitamos em sonhos as regiões umbrais inferiores onde estão indo quem vive atualmente com as mesmas vibrações desses umbrais. Não ficamos nas concentrações tumultuadas onde o desespero é gritante. Num sítio ermo, presenciamos acordar do entorpecimento, em que estavam enquanto vivas, pessoas deformadas possuindo apenas cabeça e tronco, sem membros na forma humanóide. Apenas as observemos e saímos de retorno ao corpo físico, pois estávamos em sonho.

         A profecia da herança da Terra aos mansos e pacíficos  está sendo cumprida neste final de ciclo planetário, em que se descortina os horizontes do 3° milênio, onde se vê o confronto de valores diversos  -  a separação do joio e do trigo.

      E num despertar das ilusões, a música Carmina Burana vigorosamente bela e expressiva, é mais uma mensagem para  a nossa alma adormecida neste chamamento dos últimos   trabalhadores da seara.

         Completando a palestra, na tarde primaveril, o Dr. Bello, a pessoa querida que vive nos corações de milhares de pessoas,  com  um  sorriso  paterno,  nos  diz:     

         “Vamos brincar ainda um pouco mais porque ainda somos um pouco crianças. Mas, não deixemos que as emoções   ocupem o lugar de nossa inteligência que precisa   reconhecer os amores que a vida nos oferece”.                  

Blog  Fernando Pinheiro, escritor

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

CANÇÃO DE SOLVEIG

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        Derramando uma envolvente doçura, a voz de Solveig cantava uma canção que falava da espera do seu amado que tardava tanto a chegar. Grieg, o compositor norueguês, a   retratou em sua suíte Peer Gynt.

         O romance do casal, narrado em peça dramática pelo escritor Henrik Ibsen, começou em olhares que buscavam a mesma direção, numa festa de casamento em que se  apresentaram como convidados.

         Ela estava acompanhada de seus pais e trazia em suas mãos um livro de cânticos enrolado num lenço. Seus cabelos de cor-de-trigo, seus olhos de um azul turquesa brilhavam como  as lâmpadas da festa.

         Apenas um encontro de olhares, o suficiente para Solveig não perdê-lo de vista em seu coração, embora seus olhos iriam procurá-lo pelas distâncias. O amor tem esses enigmas, esses laços que prendem, não importando as circunstâncias.

         O tempo passa como passam as paixões que incendeiam os desejos inocentes para depois mergulharem no vazio. E, assim, vamos encontrar, na velhice, Peer Gynt voltando para a  cabana onde mora  Solveig.

         Vestida de roupa de domingo, carregando o mesmo livro de cânticos enrolado num lenço, como  naquele primeiro encontro, ela pressente a chegada dele e canta a canção que fala de um   amor  inesquecível.

         Ao ouvi-la, ele fica atônito, deslumbrado e, acostumado à vida peregrina, não sabe o que fazer. Põe-se a correr pelos campos como a procurar o que já havia encontrado.

      Num impulso que não entende, volta à porta da cabana completamente derrotado pelas ilusões que buscou pelo mundo afora e pede para ela se queixar em voz alta de todos os erros  dele.

       Solveig, esbelta e doce, continuou em sua voz enternecida: “bem-vindo, meu querido, que fez de toda a minha  vida um   cântico de amor! Que bom que você voltou!”

         Ainda sentindo as emoções em desalinho que o passado refletia naqueles momentos, Peer Gynt ficou desanimado e   falou  que  estava  perdido.

         A voz de Solveig procura desmanchar a atmosfera sombria em que se encontrava o seu amado, como sol que surge lentamente no horizonte diluindo as brumas do amanhecer.

         O amor tem esse dom: desfazer o avesso e repor o lado direito, lá onde os sonhos aparecem para revelar que a vida tem um sentido bem maior do que aquele em que a nossa   imaginação buscava encontrar.

         O aventureiro abatido pediu à sua amada para decifrar o enigma que o atormentava: “onde eu estive durante todo o  tempo em que você não me viu?”

         A resposta de quem ama é fácil demais: “você estava onde sempre esteve: em minha fé, na minha esperança, meu amor”,  respondeu ela, completamente enternecida.

         Peer Gynt sentiu-se como filho que volta ao lar, e um carinho todo especial, misturado à proteção que sua amada  estava  lhe  oferecendo, tocou-lhe  mais  fundo.

         Enquanto o sol se levantava, ela começou a cantar uma doce canção de ninar. Peer Gynt descansava sua cabeça atribulada pelas aventuras sem direção naquele recanto onde sentiu o seu coração bem perto de sua amada.

         A Canção de Solveig é o cântico feliz de quem ama e   confia no amor. E, por assumir uma posição superior aos declínios do caminho, a sua presença vem sempre   acompanhada de proteção. 

         Alma que redime alma. Não importa se a mulher revela o seu lado materno quando há necessidade para desfazer  traumas de caminhos de espinho.

         Quem não gostaria de recompor as vestes que estão pelo avesso, apenas numa atitude simples que revela o lado bonito onde podemos nos sentir felizes, caminhando, passeando e principalmente ao lado dos amores que nos encantam  a  vida!

         A Canção de Solveig é a canção que prepara o leito, as condições para dormir e, num clima refeito das energias gastas, o recomeço de um novo dia em que o amor surge como se fosse  o instante primeiro.

Blog Fernando Pinheiro, escritor

domingo, 14 de outubro de 2012

CAPRICHO ESPANHOL


       A  suíte Capricho Espanhol, opus 34, do compositor russo Rimsky-Korsakov consta de cinco fragmentos sinfônicos, dentre os quais se destaca Cena e Canto Cigano que se desdobra em  ritmo de dança.

         Em tudo vemos a beleza resplandecer. Sorrisos de bailarina da dança-do-ventre, embalados por música que  inspira o amor e se perpetua nos clássicos.

         No estilo cigano a sedução é o cântico que chama a alma adormecida. A mulher gira a luz que cria sonhos e fantasias. Suas vestes escarlates se desdobram no ar como se fossem espumas do mar criando rendas na areia.

         Amante da liberdade, o povo cigano caminha levando a sua alegria aos tristes, a magia da sedução àqueles que não  acreditam mais na conquista amorosa.

         A arte cigana se espalha nas artes divinatórias, revelando a inspiração dos poetas e dos místicos, dos senhores do oráculo e dos profetas que enunciavam os tempos. Debaixo dessa ponte, há muita água a ser dividida. Não somos esotéricos porque a terceira visão ainda está mergulhada no plano mental nesta consciência trina que está indo embora do planeta.

         A dança cigana é beleza que se manifesta para desabrochar sorrisos como o vento brinca na areia do deserto para mostrar que é mais forte que a ameaça da destruição.

         Alma cigana. Quem tem a alma cigana? Quem dança na luz? Quem ama acima de toda ameaça? Quem acredita no amor em festas, nos sorrisos e nas mãos que espalham ternura, sacudindo vestes que desdobram cascatas, cascatas de rendas?

         Ainda numa visão poética, essas vestes são asas de borboletas voando nos jardins ou são mesmo cascatas de águas espumantes que caem no solo e se levantam desfazendo-se no  ar, num mergulho dos sonhos.

         O ritual cigano prepara o momento do enlevo que sacode a alma adormecida e a encaminha para seus sonhos de ventura.

         Se as estrelas no céu refletem luz que brilha sem apagar,   o encanto cigano revela o amor se agitando nos sorrisos e no sacudir do corpo da bailarina que espalha a sedução.

         A dança é um gesto do corpo, como o andar, o cantar, o ouvir e o ler. Não vamos dar peso e referência a quem a aprecia de modo diferente. 

         Davi dançou diante da arca e deixou versos que perpetuam os salmos, Salomé deslumbrou os olhos do rei num bailado que ficou na História e, na cultura oriental, a mulher dança antes  de se entregar ao seu amado.

         A soprano Maria Ewing, uma das mais belas Carmem, papel–título da ópera que encantou o Metropolitan Opera House de Nova York, nos Estados Unidos, encantamento que se espalhou pelo mundo, interpretou Salomé de Richard Strauss, onde no palco deixou cair, cumprindo o script, a roupa que a vestia, no espaço de segundos que a música não deixa os  ouvintes notar a nudez relâmpago.

         O ballet clássico tem o vigor da música que lhe dá cobertura, em vibrações sonoras que se eternizam como a  beleza nas artes e nos sentimentos que revelam o amor.

         A bailarina cigana dança músicas de um cultura que não deixa o amor se apagar, num momento tão agitado por  vibrações perturbadoras que passa o planeta inteiro, nos poucos anos que antecedem ao choque da humanidade.

        Refletindo na missão que todos possuem, nos mais diversificados níveis da cultura, ficamos a imaginar como é bonito o gesto daqueles que espalham sorrisos e alegria àqueles que buscam apenas um pequeno impulso para se sentirem  felizes.

Blog Fernando Pinheiro, escritor

sábado, 13 de outubro de 2012

APPASSIONATA

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         Num clima tempestuoso em que se desenrola a Sonata   n° 23, em fá menor, opus 57, Beethoven retratou, de forma magistral, as paixões humanas diante da inexorabilidade dos fatos que se impõem como as ondas do mar.

         Os sons harmoniosos e vibrantes expõem a ligação intrínseca do homem com o seu destino que se revela em condições justas e exatas como o movimento allegro assai que se desdobra nos primeiros andamentos da Sonata.

      Nesse clima de alegria, as paixões humanas seguem à frente traçando rumos que se recomeçam para compor o que  sempre estava faltando. Só o amor dá a plenitude.

        As paixões humanas são cavalos selvagens que correm mostrando força acima das rédeas, buscando sempre a liberdade dos ventos. O compositor alemão igualmente retrata o drama interior do homem que busca, numa paixão   desenfreada,  ser  livre.

         Como os ventos, as ondas do mar, as tempestades de areia são forças que têm uma direção, a Sonata nos revela a lógica evolutiva das formas temáticas, harmônicas e rítmicas em que o compositor deixou ao mundo como lição de beleza  imperecível.

         Os desejos, que explodem numa paixão, buscam a felicidade, como as crianças alegres caminhando entre perigos da rua. É o impulso maior da criatura humana que luta para que tudo dê certo, embora não saiba o que realmente lhe  convém.

         Nas caminhadas em busca da evolução, o homem se veste das mais diversificadas roupagens e acolhe, se for inteligente, as circunstâncias que lhe dizem respeito. Não precisa lutar por nada, porque tudo se lhe apresenta claro e cristalino e, numa visão consciente, reconhece o que está incluído nesse jogo de luzes.

      As imagens fluídicas da Sonata nos revela o turbilhão de pensamentos humanos voltados ao campo do desejo e, numa visão distante, parece-nos que esses pensamentos se transmutam na efervescência das abelhas fazendo o mel.

         A paixão é o ponto máximo do desejo. Nela tudo palpita, geme e chora como a criança procurando os seios maternos e na separação dos sonhos que fugiram por outros caminhos.

         Assim como não precisamos sacrificar um cavalo selvagem, mas domesticá-lo, aproveitando suas forças, as paixões não devem ser extintas abruptamente, pois são impulsos fortes revelando o destino. Busquemos a inspiração para saber por onde devemos seguir. 

       Em dois movimentos allegro da Sonata sentimos as paixões humanas, em busca da felicidade, são amores que não esperam o amanhã, vivendo nas madrugadas o que pode ser desfrutado à luz do dia. Transportando esse sentimento para o clima nacional, a canção Beijo Sem, de autoria de Adriana Calcanhoto, na voz de Teresa Cristina & Marisa Monte, retrata  bem este perfil.

      Nesse clima de busca, encontro, desencontro e o encontro definitivo com os verdadeiros amores, há uma jornada de tempo revelando as etapas que compõem o roteiro  do  destino.

         Antes mesmo do final da composição musical, sentimos que as paixões são amadas pelo compositor como amamos o sexo e os anjos, o dinheiro e o desprendimento, o lar, o trabalho, as leis e os costumes e a própria música como meios de nos engrandecer cada vez mais no conceito que deslinda os  enigmas do caminhar.

       Nos jogos das paixões e das situações adversas que não favorecem a sincronia do tempo e espaço, nos sonhos que   pensamos ser sonhos, aceitamos o aparente fracasso como algo  que não seria bom para  o  nosso viver.

         A atmosfera do fiat voluntas Tua abafa todos os desejos, paixões, até mesmo o decantado livre-arbítrio que se anula diante do Absoluto, em manifestações multifacetadas que fazem girar as galáxias e abrem uma flor.

    Beethoven, o artista da transcendência, revelou, na mais convincente das artes, as paixões humanas que caminham em direção do amor, como o trigo a caminho  da  mesa.

       A Appassionata é um dos grandes momentos da música, tão sublime como naquele instante em que o homem passa a compreender toda a sua trajetória na Terra e caminha inteligentemente ao estágio da angelitude, como  fez  Beethoven.

         Beethoven, um ser multidimensional, no momento atual poderia estar nas estrelas, mas preferiu estar na psicosfera da Terra, acompanhando a luz crística retornando ao planeta. Não é dito que Jesus voltaria com os anjos?

     Beethoven, retratista das paixões humanas e, acima de tudo, semeador do paraíso.

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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

PRESENÇA ROMÂNTICA


        A música tem uma ligação profunda com os estados d’alma da criatura humana. Quem a mantém dentro de si, cantando ou em silêncio, reproduz as vibrações do compositor ou do referencial vibratório em que ele está intimamente   ligado.

         Por exemplo: Danças Húngaras, de Brahms, Danças   Eslavas, de Dvorak, Danças Romenas, de Bartok são músicas de intensa harmonia que nos fazem lembrar os gestos dos pássaros, dos animais e dos peixes, quando buscam estabelecer relações com o conjunto. Isto é o principio da unidade que a humanidade está adquirindo em larga escala. 

         Os estilos musicais servem para expressar as tendências de cada autor que revela suas experiências sentimentais e, numa visão mais ampla, o caráter nacionalista de um povo. Sentimentos e emoções se misturam em jogos de notas musicais em diferentes movimentos; o ritmo e a harmonia  sempre  os  acompanham.

         A música faz a festa dos amores, recorda inefáveis lembranças que não deixam os momentos de felicidade se apagarem e aquece corações que se curtem ao vivo,   estimulando-os  a  amar  sempre.

         Tudo vibra em torno da música. É comovente a sonoridade das tempestades solares, dos reflexos de luz que dançam as auroras boreais, dos ventos que correm no deserto espalhando nuvens de areia, do relâmpago que converge num só instante a  tocata e a fuga.

         A composição romântica de Brahms, revelada pelas orquestras, é de intensa e profunda musicalidade que se derrama na felicidade dos amores, numa festa de sorrisos e beijos, na certeza do amanhã é agora, num amor eterno. A música embala momentos mágicos de rara beleza, um instante  do paraíso.

         Danças Eslavas, de Dvorak, têm muito a ver com os gestos da mulher que dança, de cabelos soltos, revelando todo o amor que sente num momento em que se prepara para a entrega, a doação total de tudo que vibra  em  seu  ser  mais  profundo. Vale assinalar Danças Eslavas não é música de programa, é simplesmente música, música romântica.

    De igual modo, numa expressão consagrada, Bartok, de nacionalidade húngara, celebra a arte da dança do povo  romeno que faz reunir os sentimentos românticos nos movimentos musicais  que revelam o encanto das horas.

         A mais expressiva das sonatas, a Sonata em dó sustenido menor, opus 27, n° 2, Ao Luar, de Beethoven, traz uma  visão  paradisíaca  que  somente  os  astronautas sentiram ao pisar na Lua. O compositor alemão, de caráter romântico pelo profundo subjetivismo, certamente contemplou as nascentes das chuvas  de prata.

         Como é encantador e real o homem se ligar à beleza do Universo; saber que a nossa casa planetária é azul, como um sinal de que devemos estar mergulhados nos sentimentos que irradiam uma atmosfera azulada. O amor, em seus caminhos cristalinos, mostra-nos por onde devemos passar.

         Assim como o homem gosta de viajar a lugares onde a natureza faz prodígios em santuários ecológicos, outros viveiros de forças mais atuantes se estendem diante de sua alma peregrina para revelarem que no paraíso há muitas moradas.

        Quem não gostaria de ver os anéis de Saturno? Poeiras luminosas, cintilações de cores que se multiplicam em matizes variadas, numa cadência de sons que nos fazem lembrar dos movimentos suaves e profundos das sinfonias de Sibelius.

         A presença romântica está no brilho do luar e no coração do homem que busca o amor como fonte inesgotável de suas aspirações que, por já estar vivendo-as, não sente mais desejo algum. Esse clima suave e alentador embala as noites na Ursa Maior, Andrômeda, Orion, por toda a Via-Láctea e outros  mundos de beleza imperecível.

         Quando ouvimos romance na composição de Beethoven, Dvorak, Tchaikowsky e tantos outros grandes compositores clássicos, o nosso pensamento flui numa  corrente diáfana, que vem da música, e sentimos como é cheio de tanta beleza este   movimento musical.

         Uma atmosfera azulada nos envolve a refletir nos  encantos da mulher amada, nos sorrisos que se doam, nas emoções derramadas em abraços e beijos. É muito importante os casais permanecerem ligados neste enlevo embriagador, no bom sentido, onde surgem espontâneos a sedução e a conquista, sem que tenhamos a preocupação de buscar ou fugir.

         Se apreciamos a beleza da paisagem que se reflete nos montes, nas lagoas, nos riachos e na vegetação que se escorre pelos ventos das campinas, por que não a veríamos mais   atuante na mulher?

     Sabemos que a montanha pode estar encoberta de neblina, trazendo sempre um clima mais frio, mas aparecerá quando o calor do sol vier surgindo lentamente para levar para a atmosfera aquilo que pensamos ser obstáculo. Esta imagem poética pode se refletir nos casais embaraçados no relacionamento conjugal. O calor, sempre o  calor, pode dissipar todas as neblinas.

         Como meio que pode aquecer a ligação entre os casais, pensamos no namoro. O marido e a mulher devem namorar o tempo todo. Não esquecer os menores detalhes e colocar a imaginação criando sonhos que se convertem em realidade ao   contato dos cinco sentidos e, numa dose mais forte, ao sexto sentido, elevando o amor a nível transcendente onde reina a  eternidade.

         O romance, que desperta o enlevo encantador, surge num olhar simples e profundo que pode comover a quem não se alinhou perfeitamente nas correntes fluindo energias que iluminam a interioridade da alma humana.

         A palavra, outro condutor que carrega energia, deve ser bem dirigida no clima romântico, nunca elevando em descompasso que pode destoar toda a harmonia já antes  conseguida.

         Ao contrário da crítica, que pode desestimar quem não a pode compreender em circunstâncias difíceis, devemos estimular o elogio naquilo que a companheira pode trabalhar para recompor situações em que toda a família depende para  se  manter firme.

         Elogiar sempre os encantos da mulher que nos comovem, como também aquelas possibilidades que podem aumentar o calor sempre crescente e vivo, pois somos iguais a notas musicais que precisam ser direcionadas numa pauta musical capaz de ser convertida num romance clássico.

        Quando o homem compreender a harmonia que a mulher traz consigo, verá a beleza se irradiando nos movimentos de expressão corporal, no aroma sensual que desperta os sentidos, no olhar que revela a nudez da alma que precisa, mais do que o corpo, ser acariciada e levada  a êxtase.   

Blog  Fernando Pinheiro, escritor

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

VELEIRO

      Iniciando com sons articulados em “an”, “an” e seguidos  de 23 sons da nota musical “lá”, a canção Veleiro, integrante da suíte Floresta do Amazonas, de Villa–Lobos, escrita nos  idos de 1958, na cidade do Rio de Janeiro, traz os seguintes movimentos: lento, medianamente forte, glissando suave,  rallentando, a tempo, suave e pianíssimo.

         A letra da música é de autoria da poetisa Dora Vasconcelos. Com o desfile de sons em vocalize “an”, “an”,  inicia-se o canto.

     A floresta amazônica, que se estende além das fronteiras  brasileiras, alcança as praias de rios e as praias do mar onde existem veleiros, inclusive os veleiros caribeños, que navegam inspirando poesia e canções.

       Na canção Veleiro o tempo é marcado pelas velas no mar que passam deixando a tarde azul de anil. Rodeado de  ondas do mar, a poetisa vê as ondas no vai-e-vem sem a levar, e uma tristeza cai dentro dela.

       A frustração gera agressão, assim como a mágoa um doce murmúrio de um triste amor. Saber perder é conquistar um lado que precisa ser demonstrado como sinal de aceitação da  vida que não se restringe apenas à esfera de nossa alçada.

         Mesmo estando triste, a mulher recorda o passado e sente um alívio, uma suavidade que a paz inspira e desabafa, em murmúrio: “.. sempre eu fiz muita atenção em não pisar teu  coração”.

         No relacionamento entre casais, situações diversas acontecem, há encontros e desencontros, encantos e desencantos, em que se misturam sentimentos que revelam a  natureza intrínseca de cada um dos parceiros. Uns estão mais perto da realidade única que nos envolve, outros mais atentos  à  sua própria realidade que precisa ter um sentido mais amplo  de convívio.

         Nesse contexto é que a renúncia e o desprendimento     têm aceitação total. Compreender as situações vividas por  nossos amores em dificuldades em aceitar uma realidade  contrária aos seus desejos pessoais, faz-nos sentir satisfeitos    e inclinados a ajudá-los, caso, um dia na vida, venham a nos  recorrer a atenção.          

         A mulher na canção vai-se aos poucos mudando de  atitude. O que está parado cede ao que está em movimento. As ondas do mar, no vai–e–vem, inspiram a mudança de comportamento percebido em seus cismares de tristeza que se diluem como ondas do mar.

         Com lua crescente, a animação cresce e se espalha no horizonte, há um canto de alegria nos últimos versos da canção:

         “Ah! longe no céu vai a onda jogar tudo que é meu dentro  do  mar, vem me esperar, ah! lua, lua branquinha, lua crescente me  espera. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!”

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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

SAMBA CLÁSSICO


          Escrito para canto e orquestra, nos idos de 1950, na cidade do Rio de Janeiro, o Samba Clássico, de Villa–Lobos, tem os seguintes movimentos: poco animato, allargando, più  mosso, crescendo sempre, allargando.

          Com um bis no primeiro e no terceiro parágrafos, a  letra da música é de autoria de Carlos Paula Barros (1894/1955), poeta, biógrafo, teatrólogo, membro da Academia Paraense de  Letras, que diz:
         “Nossa vida vive, nossa alma vibra, nosso amor palpita na  canção  do samba. É a saudade intensa de uma vida inteira, é a  lembrança imensa que jamais esquece...”

         Com a presença de turista estrangeiro que prestigia o carnaval nas principais capitais brasileiras, e a de jornalistas e repórteres nacionais e estrangeiros que o divulgam, o samba ficou sendo conhecido no exterior. Expressão musical derivada de ritmos africanos, como o lundu, é uma referência da cultura nacional e teve manifestação inicial nas classes pobres da  sociedade, e afirmou-se como gênero musical urbano, a partir  do início do século XX. Com a chegada da era do rádio, nos  idos de  1922,  atingiu  a  classe  média  do  Rio  de  Janeiro.

         Ao longo de sua história, surgiram no samba variações  que  alteraram  a  estrutura  do  compasso  binário  e o  ritmo  sincopado. Daí, nasceram o samba–enredo, o samba–choro, o partido alto (conhecido depois como pagode, oriundo do  samba-de-roda), o samba–canção e a bossa nova. E, a partir   de 1990, o funk e o reggae, com influência musical da Jamaica, terra do famoso cantor Harry Belafonte, incorporaram-se à  música  brasileira.

         A bossa–nova foi introduzida e apreciada nos Estados  Unidos,  graças  à  mistura  da  batida  do  jazz,  o  tipo  jazz soul, mais romântico, mais leve e um pouco dançante. Eis o segredo do sucesso de Tom Jobim (nome do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, antigo Aeroporto do Galeão) e a sua linda Garota de Ipanema (letra de Vinícius de Moraes)  que encantou o mundo e fez surgir toda uma geração de  compositores  de  uma  época  que  passou.

         Igualmente no ritmo de bossa nova, a música Almost  in Love (Moonlight in Rio), composta por Luiz Bonfá, teve a interpretação magistral de Elvis Presley, disponibilizado na Internet – Youtube.

         De um modo geral, as composições musicais, expressando os versos de poetas e trovadores, derramam sentimentos que  vibram em nossa alma, palpitando o amor no coração e  revelando uma vida inteira debruçada sobre saudades e  lembranças  jamais  esquecidas.

         A letra do Samba Clássico finaliza numa mensagem dos  que aqui habitam felizes não elegendo raça nem preferindo crença. A preferência do brasileiro por time de futebol é    bastante notória, hoje em dia, até mesmo como forma de comunicação. O Botafogo é o melhor time.

         A corrente de multidão de pessoas, que vibra pela  conquista dos campeonatos mundiais nos esportes, que o  Brasil vem alcançando desde 1958, quando se iniciou a era Pelé, nome dado ao mais importante atleta do século XX, tem o  mesmo ímpeto que faz vibrar o final da canção de Villa–Lobos,  escrita 8 anos antes: “Minha gente! Minha terra! Meus País! Minha Pátria! Para a frente, a subir! A subir!”

         Sem ter a mesma divulgação popular, o Brasil vem  alcançando primazia internacional na área cultural com a  apresentação de excelentes pianistas e regentes que se  consagraram nas mais importantes orquestras, em récitas    nas salas de concerto e nos grandes teatros da Europa e dos  Estados Unidos.

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terça-feira, 9 de outubro de 2012

MELODIA SENTIMENTAL


      A Melodia Sentimental, escrita para canto e piano, nos  movimentos poco moderato e com final allegro vivace, integra  a Suíte Floresta do Amazonas, de Villa–Lobos, obteve inúmeras gravações, no Brasil e no exterior, e se destaca, em primeiro  plano, a voz da soprano lírico Bidu Sayão, nome tradicional  na história do canto no Brasil e no exterior. Nos idos de 1996, a cantora popular Zizi Possi também gravou esta melodia em CD.

         Derramando imagens intensamente românticas, a letra desta melodia, com assinatura da poetisa Dora Vasconcelos,  acompanha o lirismo que a música transmite, tão bela como a Melodia Sentimental, de Tchaikovsky. Os primeiros versos  evocam  a  luz  da  lua: 

         “Acorda, vem ver a lua que dorme na noite escura que  fulge tão bela e branca, derramando doçura. Clara chama silente ardendo  o  meu  sonhar.”

         A lua dos fulgores é a luz dos amores, nela um  mundo refulgente estende sonhos aos amantes que buscam inspiração para transmitir a mesma luz que dela se derrama.  Por isso, a lua é meiga e tem a cor d'alma de mulher. A Igreja Católica colocou a imagem da lua debaixo dos pés da Virgem  para mostrar, a nosso ver, a relação de meiguice existente entre  ambas.

         Toda a poesia da Melodia Sentimental é um convite e, se tivéssemos um milhão de dólares, faríamos à mulher amada  uma proposta para ver a lua. Parece fora de propósito a nossa  colocação, mas o que se nos afigura bizarro e esquisito é a  ignorância da beleza que emana da vida.

         Todo um clima de amor que o luar inspira vale tantas riquezas que a nossa proposta seria inferior ao que pudéssemos receber de volta. Quanto custa a felicidade, um momento de  paz profundo, um olhar que os anjos inspiram, a ternura da mulher amada que descobriu o amor dentro de nosso coração? 

         É claro que a aquisição dos bens transitórios e a dos  valores eternos são diferentes, mas uma não prescinde da  outra, assim como a alma não abandona o corpo, enquanto trilhar a trajetória terrena. Pode até fazer viagens astrais, no decorrer do sono, mas deixa um pequeno  percentual, mais ou menos 15%, para movimentar as funções  orgânicas.

         A letra da música descreve a lua que fulge tão bela            e branca, no céu, derramando doçura, e nessa chama faz arder  o sonhar de quem ama. A mulher amada dorme, e quem  sabe,  o ser mais profundo, que nela habita, não está  mais  perto  da  lua!

         No enlevo dos amores, ele desabafa: “quisera saber-te  minha, na hora serena e calma; a sombra confia ao vento o limite da espera”. A sombra simboliza o desconhecimento,  mesmo assim impulsionada pela inspiração que o luar transmite, confia nas mudanças, simbolizadas pelo vento,    para  acabar  com  o  tempo  de  espera.

         O coração palpita entre os amores, ele prossegue o    canto: “quando dentro da noite, reclamo o teu amor”. E,    ainda, suplica pela última vez: “acorda, vem olhar a lua que  brilha na noite escura, querida és linda e meiga, sentir meu  amor  e  sonhar.  Ah!”

         Há uma súplica dentro da noite, e essa súplica será  maior se ele também estiver dormindo. É a alma que sonha e pode revelar os segredos mais íntimos que as circunstâncias  passageiras abafam. Nesse reino da luz, onde a lua surge como testemunha dos amores possíveis e dos amores impossíveis,  colocamos  a  nossa  vida,  a  nossa  alma.

         A luz é um convite ao amor, precisamos conhecer o  caminho, os encantos que os segredos femininos nos revelam à medida que nos colocamos mais próximo, tanto da mulher como da lua, fulgurante e bela. Amar o sonho hoje é amar o desejo que se realiza amanhã, tão próximo, tão  próximo  que  pode  ser  um  instante  depois.

Blog  Fernando Pinheiro, escritor

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

INVOCAÇÃO EM DEFESA DA PÁTRIA


         Escrita nos idos de 1943, na cidade do Rio de Janeiro, Invocação em Defesa da Pátria (canto-cívico religioso), de Heitor Villa–Lobos, apresenta os seguintes movimentos: Poco andante, rallentando (gradualmente mais lento), a tempo, largo  con  surdina,  rallentando, a  tempo,  via  surdina,  ritenuto.

         De autoria do poeta Manuel Bandeira, a letra do canto-cívico  religioso  inicia-se  com  os  seguintes  versos: 

         “Ah! Ó natureza do meu Brasil! Mãe altiva de uma raça livre, tua  existência, tua  grandeza,  tua  existência, tua  grandeza.”

         Apresentado pela primeira vez (não a estreia da música), em 20/11/1995, pelo Coral dos Funcionários do Banco do Brasil, tendo como solista a soprano Marivi Santiago, sob a regência do maestro Alfredo Duarte, no Auditório do Edifício SEDAN – Banco do Brasil – Rua Senador Dantas, 105 - 21° andar, Rio de Janeiro-RJ, ao ensejo da abertura do 1° Seminário Banco do Brasil e da Integração Social,  Invocação em Defesa da Pátria, de Villa–Lobos, é o hino  oficial  da  abertura  do  referido  seminário.

       Nos idos posteriores, o evento tem prosseguido, sob a coordenação da Academia de Letras dos Funcionários do Banco do Brasil, em ciclo de palestras acerca das atividades do Banco do Brasil, tanto com relação à memória institucional,  homenageando a vida e a obra de seus presidentes, diretores    e funcionários que se projetaram no cenário nacional, quanto  promovendo a imagem atual do Banco.

         A letra do canto-cívico religioso é um cântico de louvor e de prece à natureza que abrange o território nacional, mãe  altiva de uma raça livre, enaltecendo-lhe a grandeza e a existência. Assim como o compositor italiano Giuseppe Verdi, no Coro dos Escravos, da  ópera Aída, faz-nos lembrar o sentido da liberdade, Villa–Lobos evoca Canaã, a terra da promissão, dentro do Brasil, o paraíso para os que aqui vivem: brasileiros  e  estrangeiros.

         A evocação é primorosa: clarins da aurora surgem dentro de um cântico vibrante de glória ao Brasil, com a apresentação de solista que o entoa num largo con surdina (andamento muito vagaroso), seguido pelos movimentos rallentando,  a  tempo,  via  surdina,  ritenuto.

      O canto evoca principalmente a proteção do Divino, do  Onipotente, a fim de que a nossa terra viva em paz alegremente  e a livre do horror da guerra, ameaçada nos idos de 1943,  época da composição da música. A súplica de proteção se estende pelas campinas, céus e mares do território nacional tão  amados por seus filhos. O tema é atual diante dos conflitos bélicos, encadeando novas posturas mundiais, principalmente  na  segurança  dos  Estados.

         A música pede ainda a nossa terra prosperidade e  fartura. Ah! Se todos os brasileiros se empenhassem nesse afã,  a iniciativa privada e a iniciativa pública irmanadas em prol do desenvolvimento sócio-econômico! Ainda há muitos focos populacionais de pobreza e miséria que necessitam ser  eliminados.

      O fluxo do dinheiro para as áreas carentes seria uma medida eficaz para solução de tantas distorções econômicas.  Mas o que vemos é o dinheiro fluir para onde já existe em  abundância. Riqueza acumulando riqueza e pobreza acumulando pobreza. Como sugestão oportuna, a letra do  canto-cívico traz a mensagem fraterna que deveria englobar  todas as classes sociais no Brasil e no mundo inteiro: “Irmãos  sempre unidos, sempre amigos”.

Blog  Fernando Pinheiro, escritor