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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

NOITES NOS JARDINS DE ESPANHA

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        A música, uma suíte de 3 impressões sinfônicas para piano e orquestra, se espalha suavemente carregada de beleza luxuriante dos grandes jardins cobertos de flores, poesia lírica e perfumada que se reflete nas noites de Andaluzia.

         O clima é completamente romântico, mas a expressão musical das Noites nos jardins de Espanha é a prova de que, sem possibilidades de discussão, o compositor espanhol Manuel de Falla é um representante autêntico do impressionismo.

      A primeira das três impressões sinfônicas derrama uma sonoridade orquestral sobre suaves acordes num tema simples que evoca a infância: as canções infantis, os olhares e sorrisos da primeira namorada, as aulas de alfabetização, o recreio na  escola, os sonhos saindo das fontes.

         A evocação da tenra idade é doce como o canto dos pássaros e nos faz recordar a ternura dos pais, a simplicidade, as alegrias inocentes que não se misturam às oscilações  passageiras.

         A inocência das crianças tem uma magia doce que nos faz lembrar do paraíso. Tudo é primaveril: há flores crescendo     até mesmo sobre os montes de pedra. Estas flores estão mais perto das fontes e recebem algumas gotas, o suficiente para mantê-las vivas.

         A segunda e a terceira das impressões sinfônicas espalham um clima de dança. A segunda, a princípio  lânguida e distante, cresce aos poucos até ligar-se completamente à outra que  possui  um  ritmo  excitante.

         E, ainda dentro do tema musical, o clima de danças reflete a alegria dos amores, o encontro que marca a presença da ternura, do beijo que deixa um gosto de algo mais que a  imaginação pode criar.

         A empolgação nos caminhos do amor reflete a felicidade dos sonhos despertados, o encanto dos ninhos que os pássaros cantam, e sentimos como é bom imitá-los em seus cantos. A natureza nos envolve porque é o amor em festa.

         Há um clima de mistério nas noites de Andaluzia. Quantos suspiros derramados nos romances de califas, sultãos,   príncipes e ciganos que atraíram mulheres de pele bronzeada  que  traziam  no  olhar  o  fascínio  e  a  sedução!

        Quando os sonhos estão em suas nascentes, é preciso mantermos uma atitude mental que possibilite a transmutação da forma, numa leveza que sentimos ao nosso alcance. Não pensar além do que existe, apenas sentir o clima em que  estamos  envolvidos.

         Muitos sonhos nascem no sono e independe de sabermos se sonhamos ou não. A realidade da vida ultrapassa todas as formas e vive nos conteúdos, conhecidos ou não.

         Viver o que sentimos vir desses mistérios é como mergulharmos no rio e deixar que a correnteza nos leve à praia que buscamos. A naturalidade, o fluir dos acontecimentos são   forças  revelando  o  destino.

      Quando mantemos uma atitude mais inteligente do que emocional, temos maior chance de sentir que os sonhos sejam verdades. A emoção alegra-nos como os sinos das catedrais, mas pode despertar nas pessoas estranhas a incompreensão ou em nós mesmos planos fora de nosso alcance.

         Viver a vida é, antes de tudo, deixar que a vida viva dentro de nós. Tudo segue um ritmo que estabelece as condições adequadas para cada ser humano. Casamento, separação conjugal, emprego, estudos, viagens, moradia são situações revelando nossos sonhos, inconscientes ou não.

         Quando sonhamos com a pessoa que foi tudo em nossa vida, e agora caminha em direção de novas paisagens, vem-nos,  com maior vigor, não apenas o sonho que acabamos de ter, o grande amor que nos enternecia nos primeiros encontros.

         A recordação desse passado ditoso, mesmo que tivesse sido mergulhado em ondas quebradiças, faz-nos mais leves e sentimos crescer o verdadeiro amor que desconhece a   saudade.

         Assim como nos separamos por acreditar ser o melhor naquelas circunstâncias, a certeza do reencontro feliz acontecerá, não importa o tempo, as distâncias que não  existem  quando  estamos  ligados  em  pensamento.

         Os sonhos vencem a morte, unindo dois amores nos lugares mais românticos que escolheram: as fontes, as praias desérticas, o luar esplêndido, os jardins adornados das mais belas flores, o lirismo revelando a força do romance e da poesia.

         Essas revelações são espaços abertos que se estendem diante de quem buscou o amor como forma de viver, independente da circunstância em que se encontra. Quem resolveu brigar com a vida, também terá outros sonhos que   indicam caminhos.

         As horas sonhadas são reflexos daquilo que somos a um nível mais profundo de consciência. As nossas necessidades existenciais têm nesse campo a circulação livre  e espontânea.

         Como é importante aceitar a realidade em outras dimensões, a vibração de amor que sentimos com as  pessoas ausentes fisicamente e manifestadas claramente nessas   circunstâncias.

         Os sonhos, os amores, os encontros são revelados pela vida para sentirmos o clima que desfaz a descrença e a timidez e resplandece como mensageiro de um  novo  dia.

         O compositor espanhol conseguiu retratar, num tema comovente, os sonhos no amanhecer e os sonhos nos  vesperais,  em  noites  que  trazem  o  perfume  de  Andaluzia.    

Blog  Fernando Pinheiro, escritor







quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A VIDA BREVE

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        No segundo ato da ópera A Vida Breve, de Manuel de Falla, ocorre a festa de casamento de Carmela e Paco, numa casa situada numa estreita rua de Granada. Neste cenário  surge a célebre Dança Espanhola.

         Salud, uma jovem cigana, doente do mal de amor, como era dito antigamente, e triste como um pássaro na gaiola, aproxima-se da  janela e canta uma ária em que diz: “antes a vida breve que um longo martírio”.

         Longe das emoções, sentimos um amor tão grande por aqueles que passam por testes difíceis. Quase sempre, não os conhecemos pessoalmente, apenas os vimos nos teatros e nas  imagens  apresentadas  pela  televisão.

        Seus sonhos, seus amores, o cenário de suas apresentações estão dentro de suas vidas. Tudo gira num turbilhão de movimentos e seus pensamentos viajam nesse  carro  invisível.   
 
         As etapas, que compõem a escalada do sucesso, se convergem num só instante, transfigurando a celebração consagradora de quem ama os palcos.

         Olhares que interpretavam enredos de cenas dramáticas e líricas empolgaram o público que via neles a encarnação do  personagem  da  peça  teatral.

         O intérprete encarna a vida e a transmite na fidelidade da fonte de origem. São vibrações múltiplas que saem de seus olhos, suas mãos, seus gestos e modos de respirar.

         Mensageiro da arte, ele tem o dom de perpetuar sentimentos que inspiram a beleza, preenchendo horas vazias  do  público  que  busca  algo  para  se  recompor.

         Nesse mundo criativo, a pausa das atividades não tira o talento e a vontade de interpretar de quem ama a arte. Apenas, o público perde. O artista, mergulhado nesse mundo, adquire novas disposições, mesmo que a maioria delas seja apenas  mental.

         Quem pode ver tristeza na crisálida, morte de uma forma para renascer em outra, mais bonita, mais cheia de cores e  com asas para voar?

         Presença marcante na vida, o intérprete não se intimida com os ventos que passam levantando poeira que pode prejudicar a visão de um olhar que se manteve sempre calmo e   confiante.

         Estamos todos neste palco  -  vida expressiva de luz e cor - que congrega aqueles que conhecemos pessoalmente ou nos enredos transmitidos pelo teatro e pela televisão, naqueles instantes em que buscávamos aprender com a mensagem   neles contida.

     Se nas horas em que o refletor iluminou seus passos, na interpretação eficiente, estivemos tão perto deles, na hora em que a luz muda de lugar a nossa posição é aplaudi-los sempre.

         A curiosidade humana é sempre pequenez e não apaga nunca os rastros de luz que suas interpretações deixaram no coração daqueles que os viam com os olhos de quem vê a  manifestação  divina  se  irradiando  em  tudo.

         As paisagens de areia, que o vento muda de lugar, em nenhuma hipótese perdem a vida que nelas existe. E, quando fazemos parte dessas paisagens, vamos caminhando,  acompanhando  os  contornos  que  vão surgindo.

         Mesmo não tendo convivido no cenário dos artistas do teatro e da televisão, sentimos que tudo que vemos, longe ou perto, nos leva a um círculo sem falhas e compreendemos porque, na ópera A Vida Breve, a jovem cigana, doente de  amor, queria tanto viver, sem sofrer.

Blog  Fernando Pinheiro, escritor





quarta-feira, 17 de outubro de 2012

DANÇA DOS ESPÍRITOS ABENÇOADOS

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        Um dos mais belos solos escritos para flauta, Dança dos Espíritos Abençoados, da ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck, é  uma  composição  lenta  e  muito  doce  que  se modula  em    menor,  sustentada  pelo  violino  pianíssimo.

         Os Campos Elíseos substitui o Inferno em que se encontrava Orfeu, a ausência da mulher amada, depois de um canto comovedor que abrandou as fúrias. A iluminação do cenário é completa e produz efeitos de luzes e cores.

         Nesse clima festivo e triunfante, o personagem mitológico e musical conseguiu o milagre da transmutação, o sonho em realidade tangível, a presença da sua amada que saiu do mundo das sombras, a vitória do amor acima das circunstâncias  transitórias.

         Quando os amores estão reunidos em êxtase, a melodia paradisíaca se desdobra suave, bem suave e um grupo de espíritos se rejubila caminhando em passos cadenciados que   se  transformam  em  dança.

         A composição musical de Gluck retrata a lenda mitológica de dois amores que se separam em mundos diferentes, mas permanecem ligados pela lembrança, pelos olhares que lhes revelaram a alma, pelo amor que ultrapassa  barreiras.

         Adormecida em sono letárgico, Eurídice não tinha condições de manter vivo um relacionamento de um passado feliz. Mas a ligação que a prendia estava tão perto dela  como os fios elétricos ligados a uma tomada.

         A mensagem do compositor alemão se amplia universalmente para mostrar que a criatura humana está cercada pelos amores e, nos passos em direção à plenitude, busca sempre aqueles que permanecem distraídos ou entorpecidos por substâncias estranha. Ninguém caminha sozinho.

         O canto de Orfeu, em sua lira imortal, é a exaltação da vida, é o canto da Terra, simplesmente porque é o amor atuante que vibra até às sombras para trazer de volta quem para ele era  Deus mais próximo.

         Mesmo cantando o amor, Orfeu estava impaciente antes da chegada de sua amada, como acontece a todos nós diante do desenrolar dos acontecimentos em que buscamos promover nossos sonhos. Nossos amores nos preocupam quando não sabemos a direção de seus passos.

         Cercado de vibrações tumultuadas, o personagem mitológico coloca toda sua alma naqueles momentos em que sente que deve continuar cantando. Nem mesmo se importaria se o seu canto iria ou não sensibilizar quem estava lhe ouvindo. Queria apenas cantar para extravasar sentimentos profundos.

         Isto vem nos provar que o amor não se projeta prevendo benefícios, mas se revela espontâneo como força que dá expansão ao fluxo que aglutina as situações do amanhã, num processo  contínuo  e  eterno.
         Na caminhada dos amores há incidentes que nos fazem refletir sobre a dança das horas, a dança dos ventos, a dança dos espíritos abençoados quando o nosso amor consegue despertar quem não estava entendendo o nosso coração.

         A questão familiar, a questão social, a questão planetária está baseada no conceito de que tudo se interliga e é impossível caminhar isoladamente ou mesmo em grupos sectários. Na caminhada para ser feliz, a humanidade busca a mesma   direção.

         O sentido gregário, no caminhar dos animais, já nos revela a ideia de que o homem, mais cedo ou mais tarde, acompanhará esse movimento da natureza, fazendo-o de modo consciente e com maior abrangência em todos os níveis: pessoais, familiares e sociais.

Blog  Fernando Pinheiro, escritor

terça-feira, 16 de outubro de 2012

CARMINA BURANA

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     O impacto brusco serve para despertar a alma adormecida. Antigamente, o poço de cobras e o eletrochoque eram muito usados na cura dos doentes mentais e, ainda hoje, a decepção amarga leva-nos a destruir os ídolos que construímos.

         Carmina Burana, a obra-prima do compositor Carl Orff, começa em cadências marciais que se tornam suaves, num lindo adágio, depois prossegue deliberadamente anti-romântica, quase sem harmonia, baseada em força rítmica de exuberante alegria, com fortes traços de sofisticação e erotismo.

         O impacto é flagrante e sentimos vontade de não mais continuar ouvindo a música. Mas, para aqueles que precisam ser despertados de todas as letargias, este é um remédio eficaz. É uma terapia de doses fortes, de grande valor.

         Numa linda tarde de domingo, primavera carioca, no Teatro Galeria, o Dr. Luiz George de Oliveira Bello, autor do Prefácio do best-sellers Minutos de Sabedoria, de Carlos Torres Pastorino, fazendo exposição de uma bela palestra, menciona que, durante dez milênios de civilização, a humanidade sempre buscou levar a vida numa brincadeira, pois a emoção estava à frente da inteligência norteando os comportamentos humanos no lar, nas oficinas de trabalho, nos  templos, nos palácios de governo.

         Homens e mulheres, prossegue o renomado médico, brincando de marido e esposa, professores e alunos apostando brincadeiras pessoais, multidões envolvidas em apostas coletivas para buscar a sorte, figuras escolhidas pelo povo, num clima de total emoção, brincando de governantes, levando milhões de pessoas à miséria, ao confronto de armas como acontece em muitos países do mundo.

         Os meios de comunicação de massa levam aos lares programas de audiência que têm aceitação imediata do público. Faz sucesso tudo aquilo que está ligado à emoção.

      A civilização egípcia, onde a Grécia e Israel foram buscar conhecimentos que se espalharam pela atual civilização, já possuía um sentido sério sobre a vida humana. A palavra  sagrada Deus, no reinado de Aknaton (Amenófis IV), era entendida inteligentemente como o passado, o presente e o futuro, em outras palavras era o infinito (tempo, espaço). 

         Depois, a humanidade conheceu duas grandes revelações de sabedoria, quando surgiu Moisés, no aprendizado do monoteísmo de Aknaton, e os profetas e, num momento inigualável a qualquer outro estágio  evolutivo, a presença de Jesus para revelar ao mundo o caminho, a verdade e a vida.

           Mesmo assim, com toda essa bagagem rica de conhecimentos, a maioria da humanidade, preferiu mergulhar nas ondas da emoção do que refletir, inteligentemente,  acerca  do  seu  caminhar.

       Acostumada, por tradição, a adorar ídolos e deuses desconhecidos, tem agora a concepção de grandeza divina apenas num anjo, num profeta, nos santos, sem abranger a  ideia do universo infinito.

         Esse reflexo espiritual se espalha em toda a humanidade. Ama-se  alguém  por ele ser do partido, da família, da religião ou, ainda, porque lhe faz demonstrações de solidariedade. É  um grande avanço, mas isto não se completa.

        Acrescenta o ilustre conferencista que estamos vivendo o momento de sermos felizes para sempre ou chorarmos até encher lagos de lágrimas em outros vales da morte como aconteceu com os fundadores da civilização egípcia, expulsos de outro planeta que se transformou num recanto do paraíso [ARMOND, 1990].

         Visitamos em sonhos as regiões umbrais inferiores onde estão indo quem vive atualmente com as mesmas vibrações desses umbrais. Não ficamos nas concentrações tumultuadas onde o desespero é gritante. Num sítio ermo, presenciamos acordar do entorpecimento, em que estavam enquanto vivas, pessoas deformadas possuindo apenas cabeça e tronco, sem membros na forma humanóide. Apenas as observemos e saímos de retorno ao corpo físico, pois estávamos em sonho.

         A profecia da herança da Terra aos mansos e pacíficos  está sendo cumprida neste final de ciclo planetário, em que se descortina os horizontes do 3° milênio, onde se vê o confronto de valores diversos  -  a separação do joio e do trigo.

      E num despertar das ilusões, a música Carmina Burana vigorosamente bela e expressiva, é mais uma mensagem para  a nossa alma adormecida neste chamamento dos últimos   trabalhadores da seara.

         Completando a palestra, na tarde primaveril, o Dr. Bello, a pessoa querida que vive nos corações de milhares de pessoas,  com  um  sorriso  paterno,  nos  diz:     

         “Vamos brincar ainda um pouco mais porque ainda somos um pouco crianças. Mas, não deixemos que as emoções   ocupem o lugar de nossa inteligência que precisa   reconhecer os amores que a vida nos oferece”.                  

Blog  Fernando Pinheiro, escritor

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

CANÇÃO DE SOLVEIG

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        Derramando uma envolvente doçura, a voz de Solveig cantava uma canção que falava da espera do seu amado que tardava tanto a chegar. Grieg, o compositor norueguês, a   retratou em sua suíte Peer Gynt.

         O romance do casal, narrado em peça dramática pelo escritor Henrik Ibsen, começou em olhares que buscavam a mesma direção, numa festa de casamento em que se  apresentaram como convidados.

         Ela estava acompanhada de seus pais e trazia em suas mãos um livro de cânticos enrolado num lenço. Seus cabelos de cor-de-trigo, seus olhos de um azul turquesa brilhavam como  as lâmpadas da festa.

         Apenas um encontro de olhares, o suficiente para Solveig não perdê-lo de vista em seu coração, embora seus olhos iriam procurá-lo pelas distâncias. O amor tem esses enigmas, esses laços que prendem, não importando as circunstâncias.

         O tempo passa como passam as paixões que incendeiam os desejos inocentes para depois mergulharem no vazio. E, assim, vamos encontrar, na velhice, Peer Gynt voltando para a  cabana onde mora  Solveig.

         Vestida de roupa de domingo, carregando o mesmo livro de cânticos enrolado num lenço, como  naquele primeiro encontro, ela pressente a chegada dele e canta a canção que fala de um   amor  inesquecível.

         Ao ouvi-la, ele fica atônito, deslumbrado e, acostumado à vida peregrina, não sabe o que fazer. Põe-se a correr pelos campos como a procurar o que já havia encontrado.

      Num impulso que não entende, volta à porta da cabana completamente derrotado pelas ilusões que buscou pelo mundo afora e pede para ela se queixar em voz alta de todos os erros  dele.

       Solveig, esbelta e doce, continuou em sua voz enternecida: “bem-vindo, meu querido, que fez de toda a minha  vida um   cântico de amor! Que bom que você voltou!”

         Ainda sentindo as emoções em desalinho que o passado refletia naqueles momentos, Peer Gynt ficou desanimado e   falou  que  estava  perdido.

         A voz de Solveig procura desmanchar a atmosfera sombria em que se encontrava o seu amado, como sol que surge lentamente no horizonte diluindo as brumas do amanhecer.

         O amor tem esse dom: desfazer o avesso e repor o lado direito, lá onde os sonhos aparecem para revelar que a vida tem um sentido bem maior do que aquele em que a nossa   imaginação buscava encontrar.

         O aventureiro abatido pediu à sua amada para decifrar o enigma que o atormentava: “onde eu estive durante todo o  tempo em que você não me viu?”

         A resposta de quem ama é fácil demais: “você estava onde sempre esteve: em minha fé, na minha esperança, meu amor”,  respondeu ela, completamente enternecida.

         Peer Gynt sentiu-se como filho que volta ao lar, e um carinho todo especial, misturado à proteção que sua amada  estava  lhe  oferecendo, tocou-lhe  mais  fundo.

         Enquanto o sol se levantava, ela começou a cantar uma doce canção de ninar. Peer Gynt descansava sua cabeça atribulada pelas aventuras sem direção naquele recanto onde sentiu o seu coração bem perto de sua amada.

         A Canção de Solveig é o cântico feliz de quem ama e   confia no amor. E, por assumir uma posição superior aos declínios do caminho, a sua presença vem sempre   acompanhada de proteção. 

         Alma que redime alma. Não importa se a mulher revela o seu lado materno quando há necessidade para desfazer  traumas de caminhos de espinho.

         Quem não gostaria de recompor as vestes que estão pelo avesso, apenas numa atitude simples que revela o lado bonito onde podemos nos sentir felizes, caminhando, passeando e principalmente ao lado dos amores que nos encantam  a  vida!

         A Canção de Solveig é a canção que prepara o leito, as condições para dormir e, num clima refeito das energias gastas, o recomeço de um novo dia em que o amor surge como se fosse  o instante primeiro.

Blog Fernando Pinheiro, escritor

domingo, 14 de outubro de 2012

CAPRICHO ESPANHOL


       A  suíte Capricho Espanhol, opus 34, do compositor russo Rimsky-Korsakov consta de cinco fragmentos sinfônicos, dentre os quais se destaca Cena e Canto Cigano que se desdobra em  ritmo de dança.

         Em tudo vemos a beleza resplandecer. Sorrisos de bailarina da dança-do-ventre, embalados por música que  inspira o amor e se perpetua nos clássicos.

         No estilo cigano a sedução é o cântico que chama a alma adormecida. A mulher gira a luz que cria sonhos e fantasias. Suas vestes escarlates se desdobram no ar como se fossem espumas do mar criando rendas na areia.

         Amante da liberdade, o povo cigano caminha levando a sua alegria aos tristes, a magia da sedução àqueles que não  acreditam mais na conquista amorosa.

         A arte cigana se espalha nas artes divinatórias, revelando a inspiração dos poetas e dos místicos, dos senhores do oráculo e dos profetas que enunciavam os tempos. Debaixo dessa ponte, há muita água a ser dividida. Não somos esotéricos porque a terceira visão ainda está mergulhada no plano mental nesta consciência trina que está indo embora do planeta.

         A dança cigana é beleza que se manifesta para desabrochar sorrisos como o vento brinca na areia do deserto para mostrar que é mais forte que a ameaça da destruição.

         Alma cigana. Quem tem a alma cigana? Quem dança na luz? Quem ama acima de toda ameaça? Quem acredita no amor em festas, nos sorrisos e nas mãos que espalham ternura, sacudindo vestes que desdobram cascatas, cascatas de rendas?

         Ainda numa visão poética, essas vestes são asas de borboletas voando nos jardins ou são mesmo cascatas de águas espumantes que caem no solo e se levantam desfazendo-se no  ar, num mergulho dos sonhos.

         O ritual cigano prepara o momento do enlevo que sacode a alma adormecida e a encaminha para seus sonhos de ventura.

         Se as estrelas no céu refletem luz que brilha sem apagar,   o encanto cigano revela o amor se agitando nos sorrisos e no sacudir do corpo da bailarina que espalha a sedução.

         A dança é um gesto do corpo, como o andar, o cantar, o ouvir e o ler. Não vamos dar peso e referência a quem a aprecia de modo diferente. 

         Davi dançou diante da arca e deixou versos que perpetuam os salmos, Salomé deslumbrou os olhos do rei num bailado que ficou na História e, na cultura oriental, a mulher dança antes  de se entregar ao seu amado.

         A soprano Maria Ewing, uma das mais belas Carmem, papel–título da ópera que encantou o Metropolitan Opera House de Nova York, nos Estados Unidos, encantamento que se espalhou pelo mundo, interpretou Salomé de Richard Strauss, onde no palco deixou cair, cumprindo o script, a roupa que a vestia, no espaço de segundos que a música não deixa os  ouvintes notar a nudez relâmpago.

         O ballet clássico tem o vigor da música que lhe dá cobertura, em vibrações sonoras que se eternizam como a  beleza nas artes e nos sentimentos que revelam o amor.

         A bailarina cigana dança músicas de um cultura que não deixa o amor se apagar, num momento tão agitado por  vibrações perturbadoras que passa o planeta inteiro, nos poucos anos que antecedem ao choque da humanidade.

        Refletindo na missão que todos possuem, nos mais diversificados níveis da cultura, ficamos a imaginar como é bonito o gesto daqueles que espalham sorrisos e alegria àqueles que buscam apenas um pequeno impulso para se sentirem  felizes.

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sábado, 13 de outubro de 2012

APPASSIONATA

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         Num clima tempestuoso em que se desenrola a Sonata   n° 23, em fá menor, opus 57, Beethoven retratou, de forma magistral, as paixões humanas diante da inexorabilidade dos fatos que se impõem como as ondas do mar.

         Os sons harmoniosos e vibrantes expõem a ligação intrínseca do homem com o seu destino que se revela em condições justas e exatas como o movimento allegro assai que se desdobra nos primeiros andamentos da Sonata.

      Nesse clima de alegria, as paixões humanas seguem à frente traçando rumos que se recomeçam para compor o que  sempre estava faltando. Só o amor dá a plenitude.

        As paixões humanas são cavalos selvagens que correm mostrando força acima das rédeas, buscando sempre a liberdade dos ventos. O compositor alemão igualmente retrata o drama interior do homem que busca, numa paixão   desenfreada,  ser  livre.

         Como os ventos, as ondas do mar, as tempestades de areia são forças que têm uma direção, a Sonata nos revela a lógica evolutiva das formas temáticas, harmônicas e rítmicas em que o compositor deixou ao mundo como lição de beleza  imperecível.

         Os desejos, que explodem numa paixão, buscam a felicidade, como as crianças alegres caminhando entre perigos da rua. É o impulso maior da criatura humana que luta para que tudo dê certo, embora não saiba o que realmente lhe  convém.

         Nas caminhadas em busca da evolução, o homem se veste das mais diversificadas roupagens e acolhe, se for inteligente, as circunstâncias que lhe dizem respeito. Não precisa lutar por nada, porque tudo se lhe apresenta claro e cristalino e, numa visão consciente, reconhece o que está incluído nesse jogo de luzes.

      As imagens fluídicas da Sonata nos revela o turbilhão de pensamentos humanos voltados ao campo do desejo e, numa visão distante, parece-nos que esses pensamentos se transmutam na efervescência das abelhas fazendo o mel.

         A paixão é o ponto máximo do desejo. Nela tudo palpita, geme e chora como a criança procurando os seios maternos e na separação dos sonhos que fugiram por outros caminhos.

         Assim como não precisamos sacrificar um cavalo selvagem, mas domesticá-lo, aproveitando suas forças, as paixões não devem ser extintas abruptamente, pois são impulsos fortes revelando o destino. Busquemos a inspiração para saber por onde devemos seguir. 

       Em dois movimentos allegro da Sonata sentimos as paixões humanas, em busca da felicidade, são amores que não esperam o amanhã, vivendo nas madrugadas o que pode ser desfrutado à luz do dia. Transportando esse sentimento para o clima nacional, a canção Beijo Sem, de autoria de Adriana Calcanhoto, na voz de Teresa Cristina & Marisa Monte, retrata  bem este perfil.

      Nesse clima de busca, encontro, desencontro e o encontro definitivo com os verdadeiros amores, há uma jornada de tempo revelando as etapas que compõem o roteiro  do  destino.

         Antes mesmo do final da composição musical, sentimos que as paixões são amadas pelo compositor como amamos o sexo e os anjos, o dinheiro e o desprendimento, o lar, o trabalho, as leis e os costumes e a própria música como meios de nos engrandecer cada vez mais no conceito que deslinda os  enigmas do caminhar.

       Nos jogos das paixões e das situações adversas que não favorecem a sincronia do tempo e espaço, nos sonhos que   pensamos ser sonhos, aceitamos o aparente fracasso como algo  que não seria bom para  o  nosso viver.

         A atmosfera do fiat voluntas Tua abafa todos os desejos, paixões, até mesmo o decantado livre-arbítrio que se anula diante do Absoluto, em manifestações multifacetadas que fazem girar as galáxias e abrem uma flor.

    Beethoven, o artista da transcendência, revelou, na mais convincente das artes, as paixões humanas que caminham em direção do amor, como o trigo a caminho  da  mesa.

       A Appassionata é um dos grandes momentos da música, tão sublime como naquele instante em que o homem passa a compreender toda a sua trajetória na Terra e caminha inteligentemente ao estágio da angelitude, como  fez  Beethoven.

         Beethoven, um ser multidimensional, no momento atual poderia estar nas estrelas, mas preferiu estar na psicosfera da Terra, acompanhando a luz crística retornando ao planeta. Não é dito que Jesus voltaria com os anjos?

     Beethoven, retratista das paixões humanas e, acima de tudo, semeador do paraíso.

Blog Fernando Pinheiro, escritor
Site  www.fernandopinheirobb.com.br

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

PRESENÇA ROMÂNTICA


        A música tem uma ligação profunda com os estados d’alma da criatura humana. Quem a mantém dentro de si, cantando ou em silêncio, reproduz as vibrações do compositor ou do referencial vibratório em que ele está intimamente   ligado.

         Por exemplo: Danças Húngaras, de Brahms, Danças   Eslavas, de Dvorak, Danças Romenas, de Bartok são músicas de intensa harmonia que nos fazem lembrar os gestos dos pássaros, dos animais e dos peixes, quando buscam estabelecer relações com o conjunto. Isto é o principio da unidade que a humanidade está adquirindo em larga escala. 

         Os estilos musicais servem para expressar as tendências de cada autor que revela suas experiências sentimentais e, numa visão mais ampla, o caráter nacionalista de um povo. Sentimentos e emoções se misturam em jogos de notas musicais em diferentes movimentos; o ritmo e a harmonia  sempre  os  acompanham.

         A música faz a festa dos amores, recorda inefáveis lembranças que não deixam os momentos de felicidade se apagarem e aquece corações que se curtem ao vivo,   estimulando-os  a  amar  sempre.

         Tudo vibra em torno da música. É comovente a sonoridade das tempestades solares, dos reflexos de luz que dançam as auroras boreais, dos ventos que correm no deserto espalhando nuvens de areia, do relâmpago que converge num só instante a  tocata e a fuga.

         A composição romântica de Brahms, revelada pelas orquestras, é de intensa e profunda musicalidade que se derrama na felicidade dos amores, numa festa de sorrisos e beijos, na certeza do amanhã é agora, num amor eterno. A música embala momentos mágicos de rara beleza, um instante  do paraíso.

         Danças Eslavas, de Dvorak, têm muito a ver com os gestos da mulher que dança, de cabelos soltos, revelando todo o amor que sente num momento em que se prepara para a entrega, a doação total de tudo que vibra  em  seu  ser  mais  profundo. Vale assinalar Danças Eslavas não é música de programa, é simplesmente música, música romântica.

    De igual modo, numa expressão consagrada, Bartok, de nacionalidade húngara, celebra a arte da dança do povo  romeno que faz reunir os sentimentos românticos nos movimentos musicais  que revelam o encanto das horas.

         A mais expressiva das sonatas, a Sonata em dó sustenido menor, opus 27, n° 2, Ao Luar, de Beethoven, traz uma  visão  paradisíaca  que  somente  os  astronautas sentiram ao pisar na Lua. O compositor alemão, de caráter romântico pelo profundo subjetivismo, certamente contemplou as nascentes das chuvas  de prata.

         Como é encantador e real o homem se ligar à beleza do Universo; saber que a nossa casa planetária é azul, como um sinal de que devemos estar mergulhados nos sentimentos que irradiam uma atmosfera azulada. O amor, em seus caminhos cristalinos, mostra-nos por onde devemos passar.

         Assim como o homem gosta de viajar a lugares onde a natureza faz prodígios em santuários ecológicos, outros viveiros de forças mais atuantes se estendem diante de sua alma peregrina para revelarem que no paraíso há muitas moradas.

        Quem não gostaria de ver os anéis de Saturno? Poeiras luminosas, cintilações de cores que se multiplicam em matizes variadas, numa cadência de sons que nos fazem lembrar dos movimentos suaves e profundos das sinfonias de Sibelius.

         A presença romântica está no brilho do luar e no coração do homem que busca o amor como fonte inesgotável de suas aspirações que, por já estar vivendo-as, não sente mais desejo algum. Esse clima suave e alentador embala as noites na Ursa Maior, Andrômeda, Orion, por toda a Via-Láctea e outros  mundos de beleza imperecível.

         Quando ouvimos romance na composição de Beethoven, Dvorak, Tchaikowsky e tantos outros grandes compositores clássicos, o nosso pensamento flui numa  corrente diáfana, que vem da música, e sentimos como é cheio de tanta beleza este   movimento musical.

         Uma atmosfera azulada nos envolve a refletir nos  encantos da mulher amada, nos sorrisos que se doam, nas emoções derramadas em abraços e beijos. É muito importante os casais permanecerem ligados neste enlevo embriagador, no bom sentido, onde surgem espontâneos a sedução e a conquista, sem que tenhamos a preocupação de buscar ou fugir.

         Se apreciamos a beleza da paisagem que se reflete nos montes, nas lagoas, nos riachos e na vegetação que se escorre pelos ventos das campinas, por que não a veríamos mais   atuante na mulher?

     Sabemos que a montanha pode estar encoberta de neblina, trazendo sempre um clima mais frio, mas aparecerá quando o calor do sol vier surgindo lentamente para levar para a atmosfera aquilo que pensamos ser obstáculo. Esta imagem poética pode se refletir nos casais embaraçados no relacionamento conjugal. O calor, sempre o  calor, pode dissipar todas as neblinas.

         Como meio que pode aquecer a ligação entre os casais, pensamos no namoro. O marido e a mulher devem namorar o tempo todo. Não esquecer os menores detalhes e colocar a imaginação criando sonhos que se convertem em realidade ao   contato dos cinco sentidos e, numa dose mais forte, ao sexto sentido, elevando o amor a nível transcendente onde reina a  eternidade.

         O romance, que desperta o enlevo encantador, surge num olhar simples e profundo que pode comover a quem não se alinhou perfeitamente nas correntes fluindo energias que iluminam a interioridade da alma humana.

         A palavra, outro condutor que carrega energia, deve ser bem dirigida no clima romântico, nunca elevando em descompasso que pode destoar toda a harmonia já antes  conseguida.

         Ao contrário da crítica, que pode desestimar quem não a pode compreender em circunstâncias difíceis, devemos estimular o elogio naquilo que a companheira pode trabalhar para recompor situações em que toda a família depende para  se  manter firme.

         Elogiar sempre os encantos da mulher que nos comovem, como também aquelas possibilidades que podem aumentar o calor sempre crescente e vivo, pois somos iguais a notas musicais que precisam ser direcionadas numa pauta musical capaz de ser convertida num romance clássico.

        Quando o homem compreender a harmonia que a mulher traz consigo, verá a beleza se irradiando nos movimentos de expressão corporal, no aroma sensual que desperta os sentidos, no olhar que revela a nudez da alma que precisa, mais do que o corpo, ser acariciada e levada  a êxtase.   

Blog  Fernando Pinheiro, escritor

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

VELEIRO

      Iniciando com sons articulados em “an”, “an” e seguidos  de 23 sons da nota musical “lá”, a canção Veleiro, integrante da suíte Floresta do Amazonas, de Villa–Lobos, escrita nos  idos de 1958, na cidade do Rio de Janeiro, traz os seguintes movimentos: lento, medianamente forte, glissando suave,  rallentando, a tempo, suave e pianíssimo.

         A letra da música é de autoria da poetisa Dora Vasconcelos. Com o desfile de sons em vocalize “an”, “an”,  inicia-se o canto.

     A floresta amazônica, que se estende além das fronteiras  brasileiras, alcança as praias de rios e as praias do mar onde existem veleiros, inclusive os veleiros caribeños, que navegam inspirando poesia e canções.

       Na canção Veleiro o tempo é marcado pelas velas no mar que passam deixando a tarde azul de anil. Rodeado de  ondas do mar, a poetisa vê as ondas no vai-e-vem sem a levar, e uma tristeza cai dentro dela.

       A frustração gera agressão, assim como a mágoa um doce murmúrio de um triste amor. Saber perder é conquistar um lado que precisa ser demonstrado como sinal de aceitação da  vida que não se restringe apenas à esfera de nossa alçada.

         Mesmo estando triste, a mulher recorda o passado e sente um alívio, uma suavidade que a paz inspira e desabafa, em murmúrio: “.. sempre eu fiz muita atenção em não pisar teu  coração”.

         No relacionamento entre casais, situações diversas acontecem, há encontros e desencontros, encantos e desencantos, em que se misturam sentimentos que revelam a  natureza intrínseca de cada um dos parceiros. Uns estão mais perto da realidade única que nos envolve, outros mais atentos  à  sua própria realidade que precisa ter um sentido mais amplo  de convívio.

         Nesse contexto é que a renúncia e o desprendimento     têm aceitação total. Compreender as situações vividas por  nossos amores em dificuldades em aceitar uma realidade  contrária aos seus desejos pessoais, faz-nos sentir satisfeitos    e inclinados a ajudá-los, caso, um dia na vida, venham a nos  recorrer a atenção.          

         A mulher na canção vai-se aos poucos mudando de  atitude. O que está parado cede ao que está em movimento. As ondas do mar, no vai–e–vem, inspiram a mudança de comportamento percebido em seus cismares de tristeza que se diluem como ondas do mar.

         Com lua crescente, a animação cresce e se espalha no horizonte, há um canto de alegria nos últimos versos da canção:

         “Ah! longe no céu vai a onda jogar tudo que é meu dentro  do  mar, vem me esperar, ah! lua, lua branquinha, lua crescente me  espera. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!”

Blog Fernando Pinheiro, escritor