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sábado, 22 de dezembro de 2012

GETSÊMANI

Christ in the Gethsemane Garden, oil painting by Heinrich Ferdinand   Hofmann (1824/1911) – The original is at the Riverside Church – New York City
O poeta fluminense Fagundes Valela descreve a noite em Jerusalém:
“Jerusalém dormia. A voz pausada
E rouca das latinas sentinelas
Nas muralhas de escura fortaleza,
O pio das corujas agoureiras
Nos velhos bastiões, os longes ecos
Dos nefandos festins, de quando em quando
O silêncio da noite interrompiam.
Mas, nas habitações dos sacerdotes,
Nos paços dos pontífices vaidosos,
Estranho movimento anunciava
Importante sucesso. As portas francas,
Os pátios e saguões iluminados,
Guardas dobradas, confusão de servos,
Tudo, enfim, revelava que essa noite
Era não de prazeres e folguedos,
Mas de urgentes questões, graves negócios.” (109)
(109) FAGUNDES VARELA, L. N. – in Anchieta ou O Evangelho nas Selvas – poema – Canto IX – Cap. II – pp. 284, 285, 286 – Livraria Imperial – 1875  – Rio de Janeiro – Acervo: Academia Brasileira  de  Letras.
A claridade de prata vinha do luar esplêndido e a brisa da noite, balançando as folhas dos ciprestes, trazia um afago no  rosto adormecido de cada um dos seus discípulos.
Naquele momento, Getsêmani era o centro das atenções dos espíritos que estavam na esfera espiritual, aguardando o desenrolar do martírio daquele que tem ascendência sobre todos que nascem da carne e, também, do espírito.
O momento era de meditação e entrosamento com o Poder Maior que distribui todas as dádivas preciosas do Universo.
A reflexão do futuro, naquelas horas de beleza espiritual, foi feita por Jesus com a mais perfeita visão dos acontecimentos que afligiriam a humanidade terrena.
Narram as Escrituras que nenhum dos discípulos esteve presenciando o instante de solidão aparente do Mestre. Possivelmente, dormindo, viram em sonhos as cenas dramáticas que iriam afligir a humanidade.
Os planos de evolução se ligam uns aos outros, como no sonho da escada de Jacó, subindo aos céus.
Os abnegados semeadores da luz – que ajudam a humanidade a encontrar o caminho do reino celestial, identificados na Seara Espírita como o Parácleto, o Espírito Santo (designação genérica dos espíritos de luz), prometido por  Jesus a Seus discípulos, designado, em outras áreas de elevado  labor, como o Espírito Santo (designação da unidade da tríade  divina) – estão acima das vibrações tumultuadas das paixões  passageiras.
Getsêmani é uma referência da realidade espiritual a que se  reportaram os místicos cristãos e místicos não cristãos,  ressaltando o exemplo daquele que nos ensinou como é importante a meditação acerca dos acontecimentos que nos  dizem  respeito.
Desenvolver esse raciocínio, acompanhando a veracidade  dos  fatos que geram outros que se ligam entre si, é  compreender a vida que nos rodeia.
Três vezes ele voltou e três vezes ele os encontrou dormindo: “Dormis? Não pudestes vigiar sequer uma hora”, falou   amorosamente.     (110)
(110) MATEUS,  26:36  a  56  LUCAS,  22:39  a  46   
Getsêmani, naquela noite de lua cheia, era um cenário de quietude. Jesus, mergulhado na consciência cósmica, pressente os acontecimentos infelizes que se desenrolarão a partir do  beijo de Judas, o amigo dissidente.
Há uma tristeza pairando no ar, não por ele, pois quem ama sempre é feliz e vitorioso, mas por causa daqueles que não o acompanharam até o fim. Não é apenas o dissidente da causa nobre, mas a grande maioria dos homens daquela época e das futuras gerações em dificuldades para sair do mundo das ilusões e entrar no paraíso.
Ele lançou um olhar compassivo à cidade que dormia e viu o Tiropeón, velha esplanada que conduzia à Porta Dourada, por onde entrou triunfante na cidade, ouvindo o coro das crianças; avistou o palácio do Sumo Sacerdote, e do outro lado o de Herodes, perto dos jardins do Gareb; a torre Antônia, o vale do Cedron e, mais além, a subida do Gólgota que se perdia na distância da noite fria [RODRIGUES, 1990].
Um instante depois, seu olhar se espalhou pelas estrelas, onde certamente entre elas ele viera e apenas mencionou aos  seus discípulos como as moradas do Pai.
A madrugada veio vindo cercada de vibrações tumultuadas pelos vendedores de ilusão que ofereceram trinta moedas de prata a Judas em troca de favores junto ao Sumo Sacerdote.
Dirigindo-se, pela última vez, aos seus discípulos, disse: “dormi agora e repousai; eis que é chegada a hora. O Filho do homem está sendo traído nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, eis que é chegado aquele que me trai”.
Entre as oliveiras, um pequeno grupo, carregando archotes para iluminar o caminho, acercou-se de Jesus e, através de Judas, quis identificá-lo. O Mestre, adiantando-se, numa serena demonstração de coragem, simplicidade e nobreza, falou a todos os presentes: “saístes, como para um salteador, com espadas e varapaus para me prender? Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo e não me prendestes”. Concluindo, numa expressão de amor e sabedoria, lhes revelou que “tudo isto aconteceu para que se cumpram as escrituras dos profetas”.

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O OLHAR DE BEN-HUR

Picture from Ben–Hur (movie): actor Charlton Heston looking at Christ 
 No cenário de morte a vida resplandecia. O vento da tarde sombria espalhava o perfume dos campos floridos de açucenas, margaridas e boninas. As folhas soltas rolavam como se fossem os sonhos dos triunfadores da espada.
O olhar de Ben-Hur era de total admiração e deslumbramento. Nunca sentira antes nada igual, nem mesmo quando pisou o tapete vermelho ao ser recebido por César não vira nele qualquer traço que lhe despertasse a alma adormecida. No entanto, um homem simples e nobre, erguido numa cruz, mostrou-lhe a maior de todas as conquistas.
Lentamente dirigiu-se a Ester, a esposa que o acompanhava, e lhe disse num sussurro comovente: “senti que a voz dele tirava a espada de minhas mãos e o ouvi falar: Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem”. 
(117)  CHARLTON HESTON (1923/2008) – in Ben–Hur, a cena do  Calvário, dirigido por William Wyler, filme que obteve 11 Oscars da Academia de Hollywood, tendo como protagonista principal Charlton Heston no papel–título que lhe rendeu, em 1959, o Oscar de melhor ator. No Brasil a dublagem da voz do ator Charlton Heston foi realizada por Márcio Seixas que, em entrevista realizada em 21/1/2007, no canal de televisão da Rede Net – TV Veiga de Almeida, declarou que o olhar de Ben-Hur a Jesus Cristo foi uma das cenas mais impressionantes que já viu em cinema. 
Toda a juventude de Ben-Hur foi movida pela represália. Nos jogos do destino, esteve prisioneiro nos embalos da galera, remando acorrentado numa trirreme romana. Ao resgatar a vida do cônsul Quintus Arrius de um naufrágio, ocorrido durante uma batalha naval, foi acompanhá-lo a Roma para receber de César as honras de triunfador de guerra.
Com o prestígio adquirido, o príncipe judeu volta as terras do Levante para competir e derrotar, na arena de Cesareia, o  tribuno Messala, o amigo de infância que se transformou em  inimigo implacável. 
(118)A cena da corrida de bigas, no filme Ben–Hur, é considerada, pela crítica e pelo público, o ponto máximo do cinema.
Agora, no Calvário, ouvindo as palavras de perdão, sente-se mais próximo dos ideais que sonhou e respira fundo para reter algo mais do que o ar, a mente fica mergulhada na plenitude.
Ben-Hur sentiu em Jesus a amizade que o seu amigo de infância não teve condições de demonstrar, na gratidão do cônsul que lhe dera o nome de pai e protetor, mas dentro dos limites humanos, na oportunidade de servir aos ideais nobres que o imperador romano pouco tinha para oferecer.
O coração desse jovem príncipe judeu era tão pequenino para receber tanto amor. Até aquilo que chamam de milagre ele conheceu: as energias da saúde que saíam de Jesus se espalhavam, como os ventos dos campos floridos, beneficiando os enfermos. Ele olhou ao redor e viu seus familiares curados da lepra. Seus olhos se iluminaram na luz que vinha da cruz e uma alegria invadiu-lhe o ser.
Naquele momento de comunhão com as esferas resplandecentes, onde gravitam as energias que movem as estrelas e tendo em Jesus a ligação maior, o paraíso parecia arder, mas aqueles que estavam sintonizados no amor sentiram o significado profundo da vida.
O olhar de Ben-Hur era o reflexo do olhar de Jesus. Agora, estava vendo a intimidade das rosas, dos ventos, do coração do  homem,  da  grandeza de Jesus que veio ao mundo sem ter a necessidade de usar o emblema da águia romana, embora  respeitável.
Quantas caminhadas foram encurtadas em apenas um passo que deu em direção do homem crucificado! Quantos sofrimentos foram retirados do caminho que Ben-Hur buscaria encontrar, estoicamente, nas oscilações do prestígio e da glória!
O jovem príncipe ficou em silêncio por muito tempo, pensando naquele olhar profundo que lhe revelou a sabedoria dos valores, os que passam e os que ficam mergulhados no tempo, reacesos na  lembrança dos amores eternos.
Alguns soldados romanos não sentiram a atmosfera azulada que fazia ponte entre aqueles que amam verdadeiramente e Aquele que é o próprio amor.
Um instante depois, uma túnica foi rasgada e distribuída à sorte. Quem a ganhou, perdeu uma oportunidade de refletir sobre a vida. Um sorriso pareceu abafar o silêncio e risadas soltas pelo ar seguiram o caminho das oscilações.
Um desses soldados, que presenciou a cena trágica do Calvário, era Demetrius. Ele tocara as vestes de Jesus. Mais tarde, tornara-se amigo de Pedro, o apóstolo. De volta a Roma, o imperador o nomeia tribuno, lotado na guarda pretoriana, devido ao combate em que saiu vencedor ao derrotar 30 homens armados na arena do Coliseu. No Palácio, torna-se amante de Messalina, a linda cortesã que tirava onda de sacerdotisa de Ìsis para granjear prestígio e poder.
O destino fez com que ele tocasse, pela segunda vez, o manto sagrado em destroços. O imperador romano encarregou a ele a missão de trazer para o Palácio a relíquia. Graças a interferência de Pedro, que evitou o iminente derramamento de sangue, Demetrius cumpriu a missão diante de uma circunstância em que a fé sobressaía acima das aparências físicas. Um antigo amor da primeira hora, uma linda jovem, mergulhada no efeito de um forte trauma, ocorrido semanas antes em que ela o viu ser levado pela guarda pretoriana, conseguiu despertar, graças a fé exteriorizada no tempo em que passou coberta pelo manto.
O imperador Calígula, de posse do manto sagrado, cometeu uma atrocidade ao mandar assassinar um prisioneiro, com o objetivo de testar o poder miraculoso das vestes. Sem a fé, logicamente, o milagre não ocorreu.
De volta para casa, Ben-Hur caminhou por um riacho onde deslizavam águas cristalinas. As pedras limpas e lisas eram como homens que podiam mudar de lugar e aquelas outras nas rochas, seria necessária uma explosão para desprender do sono adormecido da consciência e depois  caminhar, simplesmente caminhar.  

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

SIMÃO, O CIRENEU

     “...   Adiantou-se
Da multidão silente um homem forte,
De espáduas largas, vigoroso colo,
E tisnadas feições; era seu nome
Simão, o Cireneu, – calado e sério
Ergueu Cristo pelos frouxos braços,
Pôs-lhe a cruz sobre os ombros contundidos,
E ajudou-o a subir a pétrea senda.” (116)

(116) FAGUNDES VARELA, L. N. – in Anchieta ou O Evangelho nas  Selvas – poema – Canto IV – Cap. XIV – p. 307 – Livraria Imperial – 1875 – Rio de Janeiro – Acervo: Academia Brasileira de Letras.
A tarde era azul, cheia de sol. Mais algumas horas as trevas dominariam inteiramente as paisagens do monte.
O centurião romano, montado a cavalo, tinha ordens para executar a sentença até antes do amanhecer do dia seguinte, sábado, consagrado ao repouso e orações.
A caminho do Gólgota, a multidão acompanha o prisioneiro que era fustigado, de vez em quando, pelo centurião para que não pudesse desfalecer e o cortejo continuasse caminhando no percurso programado.
Quando Jesus sente o cansaço e para um pouco para respirar melhor, o soldado, embaraçado entre o dever e a piedade, olha ao redor e vê homens mudos e receosos.
Certamente, perguntou a si mesmo: “onde estão aqueles que o aplaudiram na entrada triunfal da cidade, cinco dias antes, e os curados pelas suas mãos, pela sua voz, pelo seu olhar?”
O centurião estava atento com as armas nas mãos para usá-las naqueles que se rebelassem contra as ordens de Pilatos e, ao mesmo tempo, sentiu-se emocionado com o gesto simples do prisioneiro.
Cercado pelas vibrações pesadas do clima dominante que exigia o suplício ao condenado e asfixiado pelo receio e temor de muitos, ele sabia que algo renovador estava acontecendo em sua vida, mesmo que fosse tão pequenino como o grão de mostarda.
Lançando o olhar um pouco mais adiante, reconhece um homem que pode ajudar o prisioneiro e o chama em voz alta.
Com as vestes empoeiradas, pois acabara de chegar do campo e, revelando medo, Simão, judeu de família grega radicada em Cirene, ficou parado. O centurião, arrancando-lhe um feixe de lenha que ele carregava, atirou-o para bem longe e ordenou: “obedece a César”.
Simão ajuda Jesus a carregar a cruz. O Mestre lhe dirige um olhar de profundo amor que lhe dulcifica interiormente. Quantas paisagens íntimas são descerradas para que a essência etérea se manifeste?
Ternura e gratidão eram-lhe reveladas claramente, sem palavras, e o benfeitor inesperado acreditou na inocência daquele homem.
Eram apenas poucos minutos, o suficiente, para que a  lenda pessoal do jovem cireneu lhe fosse revelada em som infinito. Impulsionado pelas vibrações inefáveis que sentiu  naquele olhar, decifrou o enigma milenar da esfinge egípcia:   conheceu a si mesmo.
  O desprendimento solidário, a serviço dos ideais sublimes, faz esquecer nossas limitações e atrai os sentimentos de gratidão de quem recebe, acumulando forças construtivas que removem obstáculos.
O amor tem esse dom: transmudar.
Ao voltar para casa, Simão contou aos familiares a emoção do dia tumultuado e a alegria de sentir o seu coração mais leve, mais leve. Era o nascer de novo.
No jardim florido de sua casa, as rosas eram balançadas pelo vento que as fazia mais encantadoras e, entre elas, um botão surgiu, naquele dia, sem que ninguém tivesse notado.
Simão, o cireneu, era um homem do campo. A vida lhe proporcionou um aprendizado voltado ao ambiente em que vivia.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

CLÁUDIA PRÓCULA


Picture: Ecce Homo – Christ before Pilate by Antonio Ciseri
O sol vestia de claridade a manhã em Jerusalém. No pretório, Pôncio Pilatos caminhava, de um lado para outro, com as emoções em desalinho. Ouviam-se vozes e murmúrios que pediam a sua presença junto ao povo.  (113)
(113) NOTA: A exemplo de Adonias Filho, imortal da Academia Brasileira de Letras, que recontou obras estrangeiras célebres, o autor reconta o sonho de Cláudia Prócula do capítulo O Sonho de Prócula, constante do original da Vida de Jesus, de Plínio Salgado – 22ª edição – Editora Voz do Oeste – 1985 – São Paulo – SP – Acervo: Biblioteca Nacional.
Em seus aposentos, Cláudia acorda com os olhos cheios de pavor. Mal consegue recompor suas vestes e sai à procura de Pilatos para relatar-lhe o que se passa em sua alma. Com a fisionomia assustada, chega à presença de seu esposo que continua caminhando, de um lado para outro, no imenso gabinete.
Duas aflições se entrechocam. Olhares de indagação se cruzam ao mesmo tempo, acumulando o clima de tensão. Pilatos tomou uma das mãos da esposa e a observou tão pálida, com a respiração ofegante e completamente nervosa. Ele tentou desviar a atenção dela, fazendo referência sobre os atrativos de Roma, a cidade eterna, e a necessidade imperiosa de permanecer em Jerusalém, por vontade do imperador romano.   
Cláudia lhe disse que não era isto que a tornara triste. Estava preocupada com o sonho que tivera. Tomando fôlego, fez uma pausa e desabafou narrando o episódio, convertido em crime hediondo, que tinha a participação dos sacerdotes.  
Com o olhar de espanto, Pilatos continuou ouvindo Cláudia que lhe falava do sonho. Sobressaltada, contou-lhe que vira um grupo de pessoas dirigir-se ao encontro de Jesus, que estava em meditação, no Jardim das Oliveiras, o Getsêmani, e o viu sendo amarrado e conduzido ao palácio do pontífice.
Cláudia revela que viu o sangue do inocente galileu ser  manchado por seu marido e, num tom de súplica, falou gritando: tu és representante de Roma, “só tu tens direito de  vida e de morte sobre os judeus, eu venho te pedir não sejas  cúmplice desse crime.” (SALGADO, 1985)
Pilatos ouviu, comovido, a esposa falar e, consultando um magistrado que participava da reunião, perguntou-lhe sobre a veracidade de sonhos. A resposta dele foi alusiva ao sonho de Calpúrnia, mulher de Caio Júlio César, que previu a tragédia do assassinato do imperador. Pilatos retomou a palavra para concluir que se César atendesse ao sonho da esposa não teria ido ao Senado. (SALGADO, 1985)     
O governador da Judeia, tentando acalmar Cláudia, disse-lhe que iria atendê-la, desde que não houvesse uma conspiração contra César. Quando ele acabara de expressar a sua promessa, um centurião da guarda pretoriana surgiu no pretório para comunicar que os sacerdotes trouxeram um réu para ser julgado no palácio. (SALGADO, 1985)     
Cláudia dirigiu o olhar ao seu marido e disse-lhe que o sonho era uma revelação: o acusado, amarrado pelas mãos, que adentrava ao pórtico do palácio, era o mesmo homem com  quem sonhara na noite anterior.
Naquele instante, o vozerio do povo aumentou em coro em que se podia distinguir a súplica para que Pilatos aparecesse em público. No mesmo instante, o centurião romano disse-lhe que  os juízes do Sinédrio, os sacerdotes e os fariseus negam-se a entrar no palácio.
Na pintura Ecce Homo, de Antonio Ciseri, Pilatos, vestindo trajes brancos, apresenta Jesus à multidão desvairada. À direita, Cláudia, acompanhada de outra mulher, saiu triste e abatida, no entanto demonstrando ser bem superiora ao marido, envolvido no clima sombrio. 
A versão narrada, em versos, pelo poeta Fagundes Varela é de comovente beleza, realçando a presença da mulher de Pilatos que avisou ao marido sobre o sinistro sonho que tivera na noite anterior à presença de Jesus no Palácio diante de uma multidão furiosa. Vale ressaltar:
“Não longe do Pretório, iluminada
Pelos flavos clarões do sol nascente,
Aparecia a casa de Pilatos,
Alva, risonha, erguida entre ciprestes,
Coberta de cimalhas caprichosas,
Frisos sutis, colunas de alabastro,
E arejadas soteias. Tão festiva
Dir-se-ia a visão de tão alto castelo
Pelos gênios da aurora edificado
Nas regiões longínquas do Oriente,
Onde termina o mar e o céu começa.
Os mansos passarinhos gorjeiavam
À sombra dos vergéis, as auras frescas
Soerguiam as trêmulas cortinas
Do belo camarim, onde entre flores,
Mimosa flor também, sobre almofadas
Lânguida descansava a linda esposa
Do opulento pagão. Seus pensamentos
Tristes deviam ser, que os rubros lábios
Cerrava convulsando, e dentre os cílios
Negros, com a penugem luzidia
Das escuras abelhas da floresta,
Rebentavam as lágrimas sentidas.
Filha airosa da Itália sonhadora!
Rôla saudosa das alegres veigas
Dos campos de Lavínia! Que pesares
Ferem-te o coração? Mas, de repente,
Um profundo gemido angustioso,
Os seios lhe agitou; a nobre dama
Levantou-se de um alto, branca e fria
Como a estátua de mármore pousada
Em brônzeo pedestal junto da porta:
Correu para a janela, as tranças soltas,
O olhar afogueado. Então, ruidosa
Bramia a onda popular na praça,
Mil vozes discordantes repetiam:
– Desatai Barrabaz! Deixai-o livre!   –
Compreende a esposa de Pilatos
A sinistra questão. Chamou um pajem,
E mandou ao Pretório a toda a pressa,
– Vai, dize a teu Senhor, ampara o justo,
Que revelou-me um sonho pavoroso
A pureza divina de seus atos,
Das intenções celestes a inocência,
A gloriosa origem de seu gênio! –
O servo obedeceu. Nesse momento
Uma nuvem trevosa e carregada
Cobriu a luz do sol, – rijo nordeste
No ledo camarim entrou silvando,
Tremeu o pavimento, e as belas flores
Que pendiam das jarras primorosas
Caíram desfolhadas no tapete...”   (114) 
(114) FAGUNDES VARELA, L. N. – in Anchieta ou O Evangelho nas Selvas – poema – Canto IX – Cap. VIII – pp. 296, 297, 298 – Livraria Imperial – 1875 – Rio de Janeiro – Acervo: Academia Brasileira de Letras.


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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O DISCURSO PROFÉTICO


Em frente do templo de Salomão, num ardente entardecer de Nisan, estavam reunidos os discípulos ao redor do Mestre. Eles lhe mostraram as edificações imponentes onde a fé e a religiosidade eram representadas em cerimônias sagradas.
Um olhar se projetou no futuro, estendendo cenas que se desenrolariam naqueles recintos, e a voz dele foi ouvida por todos: “em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada” [Mateus, 24:1 e 2].  
A caminho do Getsêmani, o silêncio se faz presente por alguns minutos e, em seguida, Jesus dá início ao comovente discurso profético de que nos falam os escritores da Boa Nova: “Que ninguém vos engane! ... Ficai vigilantes, a fim de que não sejais surpreendidos. O dia e a hora ninguém sabe, só o Pai, nem o Filho....”
Geração de vidas humanas que ainda não se libertou do ciclo de sofrimentos e dores, por ainda não entender a mensagem  lúcida do Mestre Jesus, está tendo a última oportunidade para acompanhar a parcela da humanidade que aguarda as promessas evangélicas. 
A crise dos tempos atuais, que invade os lares, templos e organizações humanas, revela a fragilidade dos conceitos que se apoiam nos valores da transitoriedade.
As palavras de Jesus eram pronunciadas com ternura e bondade para abafar a reação dos discípulos acerca dos acontecimentos futuros que se desenrolariam com a geração comprometida com as injunções do final dos ciclos do tempo, focalizada em duas alternativas: permanecer a fim de construir  um mundo melhor, ou ir embora para nunca mais voltar para este hotel planetário que ganhará mais uma estrela. É dessa forma que hoje compreendemos o que seja a separação do joio e do trigo. É uma linguagem endereçada a alma humana.
Com a saída dos responsáveis pela crise que estiveram à frente na disseminação da incerteza e dos desencantos, divulgados pelos meios de comunicação, teremos o primado da primavera  dos poetas, da revelação dos compositores e artistas que enaltecem a natureza, a harmonia, o respeito pela vida.
A composição harmoniosa das palavras de Jesus ganha uma entonação que lembram um conjunto de notas musicais ♪♫♫ soltas no ar (modulações na voz) – um aroma de perfume que o vento traz, a sensação do paraíso, o sonho de nossa alma   revelado à luz do dia.
O discurso profético prossegue em tom vibrante e comovedor: “quem estiver nos montes não volte à cidade e quem se encontrar nos telhados não desça – não haverá tempo.”
A vibração harmoniosa da voz do profeta derrama no coração de cada um dos participantes o esclarecimento: “a grande tribulação se iniciará, levando de roldão as mazelas e misérias humanas... O sol se escurecerá, antes as sombras se levantarão da Terra e a lua se banhará de sangue...” (...) “Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.” 
A profecia está atualizada. A sombra que se levanta da Terra é a poluição ameaçando a camada de ozônio e a lua banhada de  sangue é a destruição que está no plano mental dos conquistadores que espalham a guerra no espaço, nos desertos do Levante e do Afeganistão, e nas terras da antiga Mesopotâmia, de tradição bélica. A profecia tem seus ciclos.
Numa civilização que busca, por caminhos estranhos, o amor  que está a caminho, apenas ressoa em nosso ser o canto da profecia: “não ficará pedra sobre pedra”. E nos escombros, a nova humanidade buscará a consciência lógica de Deus para recompor o seu verdadeiro perfil, o seu verdadeiro caminho.
Os regimes de força, que anulam os direitos naturais do homem, serão banidos em todos os sistemas sociais. A paz será conhecida em sua forma original como a pureza das águas das fontes.
O amor será a essência primordial de que se nutrirá os habitantes da Terra e será doado, em pureza lirial, a todos e a todos os ambientes, em todas as horas, num tempo que não acabará nunca.
Nesse tempo, o sexo terá uma dimensão maior. Hoje, à semelhança de crianças que ainda não aprenderam a andar, numa festa de aniversário, come-se apenas a cobertura sem provar do bolo. O sexo está na alma e não apenas no corpo.  Esta será a descoberta da nova humanidade que se libertará do jugo milenar que as aparências impõem.  
Com a vibração luminosa do amor estendida por toda a superfície terrena, as camadas densas e escuras, que a envolvem, formadas pela poluição mental, serão extintas, assim como faz a vela acesa clareando o que antes era escuridão.


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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

NOS CAMINHOS DE JERICÓ


Jerusalém estava no roteiro de viagem. A manhã veio festiva em luz e cor. Os participantes das reuniões de estudo tinham pressa em relatar ao Mestre o fato ocorrido. Todos comungavam a mesma ideia.
Sentado à beira de uma árvore, nos caminhos que serpenteavam as vizinhanças de Jericó, o Mestre estava olhando as folhas caindo empurradas pelo vento em trajetória que ninguém poderia prever. Essas folhas têm muito a ver com os homens que seguem impulsionados pelas forças do destino  que desconhecem.
O Mestre acompanhava serenamente todos os gestos da natureza tão imperceptíveis pelos homens. Tudo tinha um valor grandioso: os ventos, as folhas, os homens, as forças que os impulsionam.
No instante em que as folhas pararam diante de um pedacinho de arbusto, seus discípulos chegaram ansiosos para contar-lhe  a novidade. À frente estava João: “Mestre, vimos um homem que em teu nome expulsava demônios, e nós lhe proibimos, porque não nos segue.”   (102)
A vibração de zelo desfigurado, que saiu da mente dos discípulos, dispersava-se ao atingir o campo magnético em que estava envolvido o Mestre. Ainda ligado à lição de incomparável beleza que as folhas o despertavam, não quis alimentar a ideia de revolta dos seus discípulos.
A ânsia deles era muito grande. Queriam uma resposta, de imediato. Sentindo o instante exato em que deveria se manifestar, Jesus disse: “Não lhe proibais. Ninguém há que  faça milagre em meu nome, e logo a seguir possa falar mal de  mim, pois quem não é contra nós, é por nós.” (103)
(102 e 103) MARCOS, 9:38
Houve um momento de silêncio, de efeito profundo. Os discípulos compreenderam que não havia razão para chamar a atenção de um estranho que estava semeando a boa semente em gestos que desconheciam.
A ânsia deles era muito grande. Queriam uma resposta, de imediato. Sentindo o instante exato em que deveria se manifestar, Jesus disse: “Não lhe proibais. Ninguém há que faça milagre em meu nome, e logo a seguir possa falar mal de mim, pois quem não é contra nós, é por nós.”  (104)
(104) MARCOS, 9:39 e 40      
É preciso ter muito cuidado com as tarefas que nos são entregues pela vida, pois cada um possui um objetivo próprio sem ter a peculiaridade que trazemos conosco. É por isso que a  diversidade dos dons do Senhor do Destino são múltiplos, tão grande quanto a escala evolutiva.
A trajetória das criaturas humanas é sempre impulsionada pela vontade divina que estabelece as condições peculiares para que os movimentos em direção do destino, onde seguem, não deixem de parar. Por isso, vemos que tudo é vida, tudo está em movimento, tudo é manifestação de beleza comovente.
Todos os gestos que nos chegam são apelos para que a emoção do existir não pare. Se há colaboração voltada no bem em comum, não devemos ficar detidos demoradamente analisando as razões por que está sendo realizada, pois o tempo corre  rápido como os ventos soltos à distância.


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domingo, 16 de dezembro de 2012

A MOEDA DE CÉSAR


O Canto VI da obra Anchieta ou O Evangelho nas Selvas, de  Fagundes  Varella,  elucida  a  questão  monetária: 
“E ensinando a brandura e a caridade,
O Salvador caminha entre verdugos!
– Mestre, consulta um saduceu, conheço
Que és sábio, verdadeiro, pio e reto.
Que da virtude desbravais as trilhas
Sem calcular futuras consequências;
Dizei-me: – é justo que pague a César
O tributo exigido? – Ora, pensava
O fariseu astuto, ei-lo vencido:
Se assevera que não, ao rei ofende;
Se assevera que sim, o povo irrita!  –
O Salvador sorriu, vendo a malícia
Desta cruel proposta, – refalsada,
Traidora como a faca de dois gumes.
– Hipócrita! – exclamou, por que me tentas?
Deixa–me ver a moeda do tributo!   –
Então mostrou-lhe o pérfido um dinheiro
Onde a efígie de César ressaltava.
Jesus leu a inscrição e erguendo os olhos,
Severo perguntou: – Quem representa
Esta imagem que vejo? – César, Mestre. –
– Pois bem, o que é de César, daí a César,
E a Deus o que é de Deus! – Esta resposta
Encheu de confusão quando a ouviram;
Calou-se o fariseu. – Mas era o dia
Do jogo vil da astúcia e da maldade.”   (99)
(99)   FAGUNDES VARELA, L. N. – in Anchieta ou O Evangelho nas Selvas – poema – Canto VI – Capítulo  III, IV, VII – pp. 188, 191, 194, 195, 196 – Livraria Imperial – 1875 – Rio de Janeiro – Acervo: Academia Brasileira de Letras.
Na praça pública havia um canteiro de rosas onde o perfume envolvia a todos os transeuntes. A pressa no caminhar não permitia que eles o desfrutassem. Sentiam algo renovador no ar e seguiam em busca de outros lugares, preocupados com os  problemas materiais.
Nas profecias, gravadas nos rolos sagrados do templo, estava escrito que o esperado Messias não discutirá em praça pública (“...Não contenderá, nem clamará.”) (100) Era costume daquela  época, como nos tempos da Grécia pré-socrática, na Ágora, os contendores falarem alto para ganharem a causa.
(100)  ISAÍAS, 42:2
Os ventos que sopravam o aroma das rosas se espalhavam  pelas ruas, pelas casas e alcançavam sutilmente o palácio de Pilatos que ouvira falar das notícias de um homem que atraía a  atenção do povo.
Envolvido por íntimas inquietações que transpareciam nos  gestos  trêmulos e precipitados,  na  voz rouca  e  destoante,  o  representante de César chamou seus agentes secretos e os  mandou  à  presença  de  Jesus. A  ordem  era  taxativa:  obter  uma prova na qual o homem de Nazaré não seguia as leis e os  costumes.
Uma hora depois, no momento em que o Mestre amado estava na praça cercado de amigos e, confirmando a profecia de Isaías, ele sorriu pacificamente e permitiu que os agentes secretos participassem da reunião.
Num silêncio que permitiu os mensageiros ficarem à vontade, Jesus ouviu pacientemente, e com bondade, as palavras deles: “Mestre, bem sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, segundo a verdade. E não dás preferência a ninguém, porque não consideras a aparência dos homens.”  (101)  
(101) MATEUS, 22:16
Os olhos dos agentes secretos de Pilatos brilhavam à luz da manhã clara que se vestia de perfume das rosas. Na intimidade sentiam a vibração de paz  que nunca tinham sentido antes.
Os mercenários de César, embora negociando interesses que se converteriam em dinheiro, possuíam algum mérito, pois quem  se aproxima de Jesus já recebe algo mais precioso que o aroma  das flores das praças.
Então, eles satisfeitos por serem acolhidos, acrescentaram:  “dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar tributo a César, ou  não?”      O divino Amigo, percebendo o que se passava além das  aparências e atraindo-os ao seu reino de amor, disse-lhes:  “mostrai-me a moeda do tributo.”  
Nas mãos dos fariseus estavam reluzindo um denário, moeda de prata de meia polegada de diâmetro, sobressaindo uma figura humana coroada de louros, circunscrita com a legenda: Tiberius Cæsar. Jesus, perguntou-lhes: “De quem é esta efígie e inscrição? Responderam-lhe: De César.”  
O Mestre, reinando no clima de confiança que envolvia a todos, falou amorosamente, mas com energia na voz: “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”  


Blog Fernando Pinheiro, escritor
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sábado, 15 de dezembro de 2012

LÁZARO

Picture: Raising Lazarus by Carl Heinrich Bloch (1834/1890)
A ansiedade tomara conta daqueles corações. Havia sempre a indagação do motivo por que ele se demorava tanto a atender ao pedido dos amigos.
O mensageiro voltou sem ele, apenas confiante na expressão de seu rosto sereno e tranquilo.
Dois dias após o comunicado do convite, o Mestre demandou à Betânia, próximo a Jerusalém, onde Lázaro estava inumado.
Quando ele chegou, Marta e Maria, as irmãs de Lázaro, aflitas, lamentaram-se, em copioso pranto, da ausência de Jesus, aludindo que se ele lá estivesse o fato não teria ocorrido.
O Mestre consolou-as dizendo que Lázaro apenas dormia e logo despertaria.
A letargia era de longo porte, passados quatro dias sem qualquer sinal de vida aparente. Fez-se uma pausa. Marta, sempre ocupada nos afazeres domésticos, agora recebendo as condolências de parentes das cidades vizinhas, voltou à presença do Mestre. Reunidos todos os familiares, Jesus disse-lhes que se cressem, veriam a glória de Deus.
No momento de uma pausa à reflexão da gravidade do acontecimento, o Mestre se dispõe a um gesto de meditação e expressou: “Pai, graças te dou porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves, mas eu disse isso por causa da multidão que me rodeia, para que creiam que tu me enviaste”.  (96)
(96 e 97) LUCAS, 11:41 e 42
A seguir, volvendo o olhar para Lázaro, na arca mortuária, disse: “levanta-te e anda”. Impulsionado pelo magnetismo salutar, Lázaro desataviou-se das ataduras que cingiam seu corpo, começou a andar, em obediência às palavras recebidas. Diante dos fatos consumados, permaneceram na memória de todos ali presentes as palavras pronunciadas por Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá”.  (97)         
(96 e 97) LUCAS, 11:41 e 42
A versão poética de Fagundes Varela, inspirada na Bíblia, narra os acontecimentos em Betânia, onde Lázaro dormia e não  sonhava:
“Vêde o quanto o prezava o grande Mestre! –
O povo murmurou. – Erguei a lousa!
Erguei a lousa que seus restos cobre!  –
Ordena o Senhor aos circunstantes.
Numerosos então, – erguei eu mando!  –
– Senhor!... já quatro dias decorreram
Depois que faleceu, fétido cheiro,
Cheiro de podridão exala o corpo,
Talvez coberto de asquerosos vermes!
Deixa que se consuma! – disse Marta.
– Não duvides, mulher, a fé sincera,
Abre do céu as portas luminosas!
Eia, vós outros, levantai a lousa!  –
Com soberano gesto ordena o Mestre.
Num volver d´olhos, a pesada pedra,
Rangendo sobre as bordas do sepulcro,
Descia ao chão da gruta funerária,
E à luz vermelha de fumoso archote
Que Maria acendera, muda, horrenda,
Como a garganta de tartáreo monstro,
Cheia de sangue e de polutas carnes,
Mostrou a tumba escancaradas fauces!...
A seu eterno Pai volveu-se Cristo
Neste instante solene: – Padre, Padre
Por me haveres ouvido eu te dou graças!...  –
Depois, erguendo a mão sobre o sepulcro,
Essa mão invisível que aplacava
As convulsões do mar, do céu as iras,
Resoluto bradou: – Ergue-te, Lázaro!   –
Abalaram-se os rígidos penedos
Com terrível fragor! O chão lodoso,
Talvez movido por secreta chama,
Tremendo se fendeu! Correu nos ares
Uma listra de fogo, e à luz sulfúrea
Que rápida aclarou a funda gruta,
Viu a gente mover-se o branco espectro
Do desgraçado moço de Betânia,
Firmar as mãos nas bordas da jazida,
Sacudir o sudário, abrir os olhos,
E entrar de novo na mansão dos vivos!...
Como negar a esplêndida verdade?
Rejeitar o prodígio? O povo humilde
Sentir passar o hálito do Eterno
Por aqueles rochedos, prosternou-se
Aos pés de Deus que os mortos animava,
Bendisse a Cristo, a aurora do Evangelho.”    (98)    
(98)   FAGUNDES VARELA, L. N. – in Anchieta ou O Evangelho nas Selvas – poema – Canto VI – Capítulo  III, IV, VII – pp. 188, 191, 194, 195, 196 – Livraria Imperial – 1875 – Rio de Janeiro – Acervo:  Academia Brasileira de Letras.
Ao recordar o clima de aflição em que estavam mergulhadas as irmãs Marta e Maria, pensamos que a mudança do estado de vigília para o de sono letárgico preocupa muitas pessoas, até hoje em dia. O estado de coma é realmente preocupante. 
Nas horas da incerteza, o homem fica aflito, sem saber agir, de imediato. Ele vai aguardando os fatos esclarecedores que lhe  clareiam a visão. Essa espera flutua na oscilação do seu  equilíbrio, diminuindo sempre nos momentos em que oscila  para a fase oculta.
É preciso saber confiar nas leis do equilíbrio que nos envolvem como os ventos das montanhas suavizando os vales, como  também os ventos que passam pelas flores trazendo o  perfume.

Blog Fernando Pinheiro, escritor
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