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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

LENDAS E VERDADE

Nos idos de 2009, a Escola de Samba Império Serrano apresentou o samba-enredo Lendas das Sereias, Mistério do Mar.
O luar se estende no samba revelando o canto da sereia em noites de lua cheia e, de nossa parte, pensamos no arquipélago de Fernando de Noronha, no litoral brasileiro, onde vamos encontrar uma lenda contada, durante gerações, pelos habitantes que lá residem. Vejamos a transcrição de textos da obra Música para canto e piano, de Fernando Pinheiro:
A lenda contada pelos habitantes de Fernando de Noronha é a respeito do episódio dramático ocorrido com um jovem casal. Ela, loira, de longos cabelos, parecendo uma alemã (alamôa para os nativos) foi morta pelo noivo. Motivo do crime: ciúme. Ele foi condenado a cumprir pena. Numa noite de temporal, ele morreu de remorso porque foi constatada a inocência da amada. Em noites de tempestade, ela surge dançando entre os rochedos a caminho da cela onde esteve preso o noivo.
A letra da canção de Capiba revela uma sombra de mulher a dançar num mundo desértico, rodeado de mar, açoitado pelo vento da tempestade. O ser mais profundo que nela vivia, enquanto noiva de um homem ciumento, recrudesce em imagens vivas que a morte não conseguiu eliminar.
Os noivos do passado, em transes dolorosos e de sofrimento, buscam o reajuste que a harmonia estabelece. O incompleto será completo, não importa o tempo e o espaço. O amor tem esse encantamento que faz surgir a beleza.
Particularmente, mesmo não aceitando o crime por amor, vemos que o canto nordestino se converte em prece fervorosa: “Alamôa, Alamôa, foi homem que pecou, perdoa, perdoa... Loura donzela, Alamôa, Alamôa, sai dos olhos do pobre pecador, tu que és mulher, tem pena do homem que o crime dele é um crime de amor”.
No mundo espiritual os passageiros do mundo material são recebidos e encaminhados a esferas de comportamento em que semearam seus corações. Quem semeou a noite escura colherá a noite escura, quem semeou o dia claro colherá o dia claro.
Os liames afetivos permanecem vivos dentro da durabilidade de que são revestidos, o que enseja pensar em grau ou escala de envolvimento, intensidade e teor vibratório das emanações psíquicas ou emocionais revelando a beleza, para concluirmos que somente o amor pode transmudar, no tempo e no espaço, a situação que revela a imortalidade do próprio sentimento.
Esse fenômeno que se irradia na natureza e se faz presente no homem, numa consciência plena, que é integrante da própria natureza, independe da condição de crença ou aceitação, assim como o átomo já existia, embora não descoberto, desde os primórdios da civilização humana.
Temos demonstrado ao longo de nossas postagens no blog Fernando Pinheiro, escritor que “tudo se interliga” e hoje tivemos a satisfação de ouvir: “tudo que existe no Universo está emaranhado, desde o “big bang”, portanto, tudo aquilo que você fizer para o outro, você estará fazendo a si mesmo, porque já está emaranhado” – In Youtube – Expansão da consciência – 20:41/51 - Hélio Couto.
Este princípio quântico poderia mudar o mundo, mas a matrix não o acredita e faz impor o domínio através do medo para controlar multidões. Enquanto isso, no plano subjetivo, a sereia vai cantando e outros luares vão surgindo encantados pelo canto.
O samba-enredo imperiano revela que em noites de lua cheia “ouço a sereia cantar e o luar sorrindo então se encanta”, os mistérios do mar, berço das sereias, se emaranham com o luar, até mesmo no plano subjetivo, onde os pensamentos plasmam situações, há uma correlação existente.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

BEIJA-FLOR – 1986

1986, ano em que a Argentina se consagrou bi-campeã mundial de futebol na Copa do Mundo realizada no México, com destaque para o jogador Maradona, a Escola de Samba Beija-Flor veio para a Avenida para apresentar o samba-enredo O MUNDO É UMA BOLA.
A homenagem ficou por conta do futebol brasileiro, muitas vezes campeão do mundo, e tem o início a alegria do povo brasileiro quando a seleção está em campo, lembrando que nos dias de jogos da Copa do Mundo paralisa o comércio, os bancos, as repartições públicas e o trânsito não apenas quando o Brasil joga mas em todos os jogos de seleções estrangeiras.
E aos domingos, a TV Globo sempre apresenta os jogos dos 4 times grandes do Rio de Janeiro que possuem as maiores torcidas (Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo), em campeonatos estaduais e nacionais (Taça Brasil e Brasileirão), em outros estados da federação o mesmo critério de popularidade e aceitação.
Esse tema teve a nossa aceitação porque fala da alegria, um dos 4 pilares que sustentam a nossa movimentação interna que nos faz ascender a um patamar de consciência planetária com maior leveza que consiste em simplicidade, humildade, transparência e alegria.
O início do samba menciona o clima alegre e descontraído do povo brasileiro fazendo a torcida por seus times de futebol e da seleção brasileira e quando o Brasil joga vira carnaval. Esta é a mais vibrante e prestigiosa egrégora que o País possui. Todos juntos numa só voz.
Contagia a todos, mesmo os que não torcem, sempre veem seus amigos e familiares torcerem juntos. A animação é muito contagiante. Das extremidades do território nacional faz-se uma ligação que une todos em todos os recantos e há folclore e mandinga. A Beija-Flor canta que no Rio de Janeiro tem samba e Maracanã o ano inteiro.
Quando descobrimos o nosso mundo íntimo, onde a beleza é esfuziante e expansiva, a alegria é o clima que sentimos e nos faz sentir mais leve pelo descarrego das cargas que a ilusão deste mundo faz transmitir em outra egrégora onde não nos cabe mais lembrar. A desconexão foi realizada com sucesso.
Influência da cultura dissociada planetária, onde se promove a separatividade e a competição, sempre atinge aqueles milhões e até bilhões de pessoas que ainda não se encontraram nessa busca do conhecimento interno. É a chave dos enigmas ou o pulo do gato que os profissionais da área da saúde buscam estimular seus pacientes quando estão frente a frente em consulta médica.
Iluminando-se com a própria luz, a pessoa já está iluminando o local em que vive, sem ter a necessidade de fazer alaridos dos sentimentos que nutre, pois a energia se expande aos ambientes onde está pensando e fazendo beneficiar as pessoas queridas que a vida lhe colocou em situações comuns.
Tudo que pensamos atraímos dentro da similiaridade de forças. A energia se expande em correntes afins. A energia da semente se acopla na energia que no mundo tem na mesma qualidade vibracional e durante o tempo de gestação a faz crescer em planta e a faz produzir frutos. É por isso que se justifica quem planta semente de cereja nascerá cerejeira e assim em diante em cada família de plantas.
No ser humano emitindo uma qualidade de energia receberá pela lei de atração a mesma energia que se expande, pois se há energia há expansão, pois o Universo está expandindo-se desde uma semente até os mundos em que existe um turbilhão de estrelas.
Esta descoberta da energia em que tudo se reveste é mais resplandecente com os nossos pensamentos, onde podemos criar a beleza em forma mais sutis, onde a alegria vem sempre à frente, indicando-nos a luz que somos, pois a energia é luz.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

DOMINGO

Carnaval Carioca - 1977, o Grêmio Recreativo Escola de Samba União da Ilha do Governador levou para Avenida o samba-enredo DOMINGO, puxado por Haroldo Melodia (1930/2008), sambista conhecido pelo famoso grito “segura a marimba”, entoando uma música que revela um convite à mulher amada para vir à janela e ver o sol surgindo na sutileza de um novo amanhecer.
É o Rio de Janeiro ensolarado com praias cheias, veleiros desfilando na orla marítima, meninos soltando pipas pelo ar nas comunidades, o carioca curte o domingo feliz. O Maracanã tem jogo e as torcidas comparecem.
Corre o tempo... 30 anos depois, eis o Maracanã cheio de pó de arroz para ver, em 24/1/2007, Fluminense 1 x 0 Friburgense e, em 11/3/2007, Fluminense 3 x 1 Cabofriense. No ano seguinte: 16/3/2008 - Flamengo 2 x 3 Botafogo, jogos apitados por Marcelo de Souza Pinto, árbitro de futebol da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, funcionário do Banco do Brasil, analista de Auditoria – AUDIT/Regionais – Mercado Financeiro, Professor do MBA em Compliance e Risco da ANDIMA – Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro.
É muito importante escolhermos uma egrégora para diversão, assistindo a jogos de clubes que torcemos, indo a clubes para dançar ou simplesmente rever amigos, sem ter a necessidade de beber nenhuma bebida alcóolica, pois a nossa saúde física e mental é o que deve prevalecer.
O samba-enredo traz um roteiro de caminhada e de diversão: “Há os que vão pra mata, pra cachoeira ou pro mar (bis), mas eu que sou do samba, vou pro terreiro sambar.”
Aos domingos, em todas as cidades do Brasil e no exterior, as pessoas buscam os parques e jardins para caminhar, namorar, sentar nos bancos e ver as pessoas passar. Lembramo-nos, com grata recordação, do Parque Trianon e do Parque da Água Branca e ainda do Parque Villa-Lobos na cidade de São Paulo, onde passeamos em doces enlevos. Há tristezas nesses ambientes mas também o refazimento de energias salutares que a natureza nos proporciona.
Quando pensamos no ideal que acalentamos no coração que pode ser um romance de amor ou o convívio de nossos familiares, a tristeza não tem vez porque a energia que alimentamos nesse ideal nos completa. A mulher é sempre a fonte inspiradora dos nossos melhores sonhos, tanto quanto dormimos como estando em estado de vigília ou acordados.
Por que os amores não seguem o mesmo ritmo de encantamento numa curva do caminho? Observemos uma semente lançada ao solo fértil, a energia da semente se expande e a faz crescer numa planta. Houve um tempo de incubação, um tempo de crescer.
Os projetos de vida, relacionados a ligações afetivas ou amorosas ou mesmo no trabalho remunerado, têm a mesma disposição de energia, pois tudo que é energia se expande, na conclusão dos cientistas, o Universo está em expansão.
Não desligar-se nunca do projeto que está crescendo, sempre crescendo e a energia do espaço que possui o mesmo campo vibracional da energia, que trazemos no coração, faz fortalecer o que sentimos pela egrégora envolvida. No campo religioso em que as pessoas gostam de atribuir resposta, seria a proteção dos anjos ou da própria luz crística.
A lei de atração e ressonância que será mais apreciada por aqueles que terão seus sonhos realizados dentro daquilo que o coração sonha, está aumentando muito nesta transição planetária, até mesmo por aqueles que nem sabem explicar como, mas que sentem que há uma egrégora planetária movimentando-se no crescer dos sonhos que promovem a felicidade.
É a mesma energia nossa que se expande.

domingo, 12 de janeiro de 2014

ALMAS GÊMEAS

Abordado desde os tempos de Platão, na Grécia antiga, o tema Almas Gêmeas recrudesce nos tempos atuais porque há no planeta Terra o avivamento dos mitos helênicos que colocam imagens ideoplásticas para dar resposta ao dualismo humano que tem amparo na consciência dissociada planetária.
Em O Banquete, livro de Platão, há associação de ideias que temos alhures uma metade que nos completaria, “o mito dos andróginos” que descreve o que se passava no início do mundo: cada ser humano vivia em um dos três tipos de androgenia: 2 homens, 2 mulheres e 1 homem e 1 mulher, assim havia a duplicidade em todos os seres humanos. Até hoje, há corrente filosófica que sustenta que todos têm um lado masculino e um lado feminino, o que discordamos.
Na narrativa helênica, esses seres mortais, os andróginos, não se reproduziam, mostravam-se muito orgulhosos e despertaram a ira dos deuses que os repartiram ao meio e os dispersaram pelo mundo. Assim, passou-se a ideia de que existe em algum lugar essa metade que nos completaria, surgindo assim a crença em almas gêmeas.
A androgenia existe, sim, não na classificação helênica, mas nos mundos felizes, esferas resplandecentes de dimensões multidimensionais que a Terra está alcançando. A sabedoria popular “anjos não têm sexo” comprova a existência da androgenia.
O sexo é um instituto natural dos seres humanos localizado na zona erógena onde existe o mais poderoso chacra, em termos de energia reprodutora. Mas o chacra frontal, onde há o retransmissor na parte física do nosso ser profundo, a potência do agir de Carl Gustav Jung ou a libido de Freud, que não pode ser vista apenas dentro da sexualidade, é o ponto fundamental de nosso viver, o sexo apenas o complemento. Evoluímos dentro das ondas mentais que criamos por deliberação própria, sem ter a necessidade de buscar nenhuma alma gêmea que possa nos completar.
A própria dependência em algo ou em alguém leva-nos ao sofrimento quando ocorrer a dissolução ou por término do romance ou aventura ou por imposição da morte de quem nos fazia companhia física. Até mesmo no relacionamento virtual, na internet, isto acontece. Somos a favor do relacionamento pessoal, olhos nos olhos.
Procurar alma gêmea é procurar a ilusão, a realidade irá refletir em momentos de desencantos que somente irão existir se dermos peso e referência. A concepção de almas gêmeas existe dentro do conceito de almas afins onde a afinidade pode ser distribuída e apreciada, sem ter necessariamente a conotação sexual, embora possa surgir, mas não é o primordial, pois almas afins podem ser de laços consanguíneos o que invalida qualquer sexualidade.
As diferenças são normais em todo o relacionamento amoroso e devem ser avaliadas com a finalidade de superação e agir na aproximação que deve ter um sentido mais amplo do que o físico. Deixemos de buscar a alma gêmea em algum lugar do mundo e aceitemos os amores que nos chegam para a vivência do amor que iremos construir juntos.
A opção de viver uma vida em saudável celibato também tem suas vantagens, uma delas é não se compactuar com a vivência de quem está vivendo uma vida na consciência dissociada do planeta que carreia 6 milhões de pessoas no meio de 1 milhão que conseguiu a transcendência à multidimensionalidade através de 4 pilares: simplicidade, humildade, transparência e alegria.
Aceitemos o que a vida nos oferece e tenhamos o privilégio de ter as nossas opções de viver, sabendo que tudo que está ocorrendo é para o nosso benefício próprio e dos amores que circundam aqui e alhures, sem ter a ideia de almas gêmeas.

sábado, 11 de janeiro de 2014

O CANTO DA SEREIA

O canto da sereia é a sedução que está presente sempre no relacionamento amoroso e que acarreta embaraços dentro do dualismo humano por fazer emergir o suplício de Tântalo, personagem revelado por Platão e abordado na Odisseia, de Homero, por isso se diz, dentro desse contexto, que amar é sofrer, revelado tanto em tangos e boleros.
Tântalo estava imerso até o pescoço por água em que estava uma árvore frutifica e impossibilitado de saciar a sede e a matar a fome porque os impulsos que dava a água subia e os frutos ficam mais distantes, isto revela, em imagens emblemáticas, o apoderamento e a sedução no relacionamento amoroso, frisando bem, dentro do dualismo humano.
A mulher ou o homem, usado como objeto do prazer, é também um objeto de apoderamento do parceiro que impõe o domínio em aspectos psicológicos, refletido em marcas territoriais, como tatuagens com nome ou símbolos que o parceiro gosta. A tatuagem é sempre servil, quando o amor é sempre libertador.
Esse domínio os animais também têm quando fazem a demarcação de território usando a urina para ser observado por invasores do mesmo reino animal, isto faz parte da conquista.
O canto da sereia revela um canto que ninguém até hoje ouviu no formato de canto que conhecemos, a não ser em imagens sonhadoras que nos tiram de foco a realidade. A própria sereia, quando foi revelado pela mitologia grega, tinha aspectos de monstro submarino, depois foi amenizado na forma de mulher e cauda de peixe.
O amor sob dominação é patológico e revela sofrimentos idênticos do suplício de Tântalo que sempre se esforça na conquista e nunca alcança o que pretende. O termo etimológico sedução vem da junção da palavra sed (doença/entorpecimento) com a palavra ducere que significa conduzir.
Como os seres humanos, vivenciando na terceira dimensão dissociada planetária, onde são 6 bilhões, excetuando-se 1 bilhão de habitantes na consciência menos densa, têm relacionamento amoroso no mesmo nível de consciência planetária, logicamente os embates pela posse serão encarados acirradamente.
A posse somente existe porque o dominado deixa-se ser levado pelo dominante, como existe a dependência emocional ou financeira, fica difícil sair desse domínio. Quando isto ocorre pela separação, o dominante busca outra a ser dominada e deixa na antiga companheira a desolação que a faz mergulhar nas águas em que Tântalo tanto sofria. Este é um quadro mais frequentes atualmente entre os casais.
As estatísticas comprovam que, nos idos de 2011, a taxa de divórcios aumentou facilitada pela alteração de prazo na legislação referente a divórcios. Isto comprova ainda o aumento de casais vivendo a solidão, depois de ouvir tanto o canto da sereia.
A troca frequente de parceiros ou parceiras não irá resolver o problema da solidão, pois podemos estar até mesmo dentro de uma multidão e sentirmos a sós. O mito de alma gêmea cresce sempre com as pessoas sozinhas, ainda neste mesmo canto que a faz sofrer nas mesmas águas em que Tântalo não realizou os seus desejos.
Não buscar nem fugir é uma sintonia que vem do Ganges, onde há águas que purificam as pessoas em oração, é porque o autoconhecimento, a autoestima são apreciados com maior valor. Se alguém lhe puxar para baixo, largue esse puxar e siga em frente, pois o importante é você e não a ilusão que devemos valor quando pensamos que era conquista.
Não ouvimos o canto da sereia e nem o queremos nem para nós e nem para ninguém. É no ser profundo que todos somos que a voz interna se faz ouvir, a única que pode resplandecer o que somos em essência: seres de luz.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

AQUARELA BRASILEIRA

Nos idos de 1964, a Escola de Samba Império Serrano entrou na Avenida Presidente Vargas para apresentar o seu carnaval que é o Brasil em forma de aquarela e fez um passeio pelo País inteiro revelando o que existe em cada região. Quarenta anos depois, em 2004, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, na cidade do Rio de Janeiro, o samba foi reapresentado pela Império Serrano. Ao nosso ver, é o melhor samba-enredo de todos os tempos.
Na narrativa surgem vastos seringais no Norte, e no Nordeste os lindos coqueirais nas praias, o acarajé, comida típica baiana, as festas de frevo e maracatu em Pernambuco, a arquitetura de Brasília, a garoa em São Paulo, e as batucadas e os requebros febris das mulatas. Este é o cenário de comovente beleza onde se estende imensas matas, cachoeiras e cascatas.
Da obra HISTÓRIA DO BANCO DO BRASIL, de Fernando Pinheiro, transcrevemos textos autorizados do discurso de Martins Napoleão, consultor jurídico do Banco do Brasil (3/5/1967 a 16/9/1977), proferido, em 20/2/1952, no qual aborda os tipos regionais do Brasil, tema da música em pauta.
"Na pluralidade dos tipos que se ajustam e reajustam nas lutas de fixação étnica do País, e integram de um colorido inimitável a sua unidade social, econômica e cultural, cinco há que se personalizaram definitivamente, dentro e fora, na alma e no corpo: o caboclo, o praieiro, o caipira, o gaúcho e o sertanejo, com as suas características acentuadas, nas grandes zonas brasileiras.
O caboclo é a incompreendida esfinge humana da Amazônia. Tem todas as grandezas, na face de bronze e na estatura mediana do índio, cujo sangue lhe corre férvido nas veias. (...)
Solidário (não solitário), reparte a vida entre a rede armada do tejupá de construção palafita, e a igara furadora de rios. Pesca, como adivinho. O arpão é-lhe uma arma de farpear, que só encontra na flecha com que abate as caças, na espera, no corso ou no voo.
Seu horizonte visual, limita-o a cinta corrediça do rio, ou a cúpula da mataria de assombração. Pouco lhe importa, a ele na dureza do mister cotidiano, a fragilidade da montaria veloz, cavada num só tronco. Vive perigosamente a vida, quer dizer: vive-a com a beleza heroica.
A imobilidade aparente não é mais do que uma fórmula habitual de defesa: a desconfiança dos elementos. Simula e dissimula, como a colossal natureza aluviana, que o rodeia, recortada pelo sistema arterial de uma potamografia dedálica, que ele conhece a fundo, desde o mais insignificante paraná-mirim, até as grandes águas das cachoeiras atraiçoadoras.
Na alma, há talvez um mistério que os séculos não decifram, nem apagam. Tem a melancolia das grandes solidões – o rio imenso, a terra imensa, a mata imensa. O peso de tudo isso é talvez grande demais para o seu espírito rudimentar.
E, quando poderia ser, na verdade, um esmagado da própria natureza, um vencido do “terror cósmico”, reage, brutalmente, acondicionando todas as suas energias, crenças, e conduta à potência física do mundo bárbaro, na criação das lendas que fazem o encanto da Poranduba Amazonense, a sua quase descoberta antologia folclórica.
O praieiro é dramático com o destino andante das suas aventuras.
O cenário de sua peleja exaustiva é feita de massas que se desdobram ao infinito – a superfície das águas e a curva dos céus, num todo de pintura homogênea. Não há, ali, o grito de uma árvore, a asa de uma montanha roçando o azul, o artifício repousado das habitações, o tônus, enfim, humanidade que excita as incoerências da terra multiforme.
Não há sombras, senão de nuvens; não há músicas, senão dos ventos. O sentimento de solidariedade, que impregna os homens da terra firme, ali não há por quem se manifeste.
A água e o céu, a cor e o som, acordes para o matar, aos poucos, de tédio. A solidão oceânica o contagiou de morte. A sua jangada, madeiro miserável a que atou, como a um poste, todas as possibilidades da sua vida errante, é o seu teatro de tragédia diuturna. Porque mede as suas forças com as da tormenta, é simples e benévolo com os outros homens.
A jangada dos nossos praieiros indômitos parece uma grande asa aberta, pedida por empréstimo aos pássaros da tempestade, que cruzam as velas aos barcos a pique de perder-se. Ali, nas pranchas misérrimas, o homem da praia amanheceu a vida tempestuosa. O seu sentimento é profundo e calado.
Só a sua alma se agita, como se dentro dela recolhesse, em ressonância, os vai-vens da onda; os ventos ébrios de cantos longínquos; as sombras que caem do alto.
Talvez por isso é que tem, como certas aves, o sentido da procela, e a sua vida reflete a beleza do constante perigo.
A sobriedade e a continência marcam-lhe a fisionomia adusta; mas, quando se pensa que o amargo mar lhe selou a alma no silêncio, ele a entorna pela boca, na tristura das canções praieiras, a acordar a ancestralidade catalã e lusa.
Submisso e devoto, mas tenaz; parcimonioso, como quem viu escoar-se o ouro das minas esgotadas, ou sumir a fartura das fazendas em decadência, o caipira da baixada ou do planalto, rasgando, sem doer, o seio da terra, extrai-lhe duramente o sustento das cidades que se aglomeraram em torno aos seus tratos de lavrar.
A desenvoltura do gaúcho matiza fortemente o florão dos nossos tipos raciais representativos. Para ele, generoso, vibrante e eugênico, a vida é alegria na carreira, alegria no labor audaz: riso à tona da boca, sentimento à mostra, coragem de sobejo.
O coração bate-lhe no peito como um touro selvagem. Ama gloriosamente a vida, na intrepidez das aventuras belicosas, que lhe trazem a ascendência, no ritmo do trabalho que os antepassados metódicos lhe ensinaram, no empolgo do entrevero, ou no langor quebrado da querência.
Aqui está, senhores, um tipo especial do sertanejo – o vaqueiro do Nordeste. Vestido em sua indumentária característica, encoirado como ali se diz – gibão, peitoral, perneiras e mocó – campeia de sol a sol, dias seguidos, semanas inteiras. O alimento, vem tomá-lo à noite, depois de esfriar o corpo. É uma resistência física admirável, uma têmpera de causar inveja.
Conhece, de longe, a rês. Num relance, o “ferro”. Num ápice, o “sinal” e “era”. Caracteriza de memória todo gado da fazenda. O rol, o tempo de cór, assim como os campos, os cantos, os malhadouros. Tem a carta ecológica da fazenda na cabeça. E todas as suas letras, em via de regra, cifram-se aos riscos de contar primitivos, com que satisfaz as exigências estatísticas do padrão.
A sua vida é o dorso do cavalo, no eito do campo. Corrige os cantos, de gados, espia as aguadas, cura os munjolos. Eito de sol a sol. E o verão é trágico. O ar, seco e quente. É preciso que os pulmões se tornem metálicos. Eito de sol a sol. E o aboio, melancólico, longo, como um motivo musical arrastado, um motivo lânguido, ansioso, súplice de música hebreia, ecoa, de quebrada em quebrada, derramando-se pelos campos calcinados.
O aboio é a linguagem de chamar o gado. É afetivo, saudoso e monótono, como uma súplica de coro gregoriano, profunda e dilacerante. Não se diga, porém, que o sertanejo é triste como a música monocórdia do seu aboio: movimentando-se na caatinga desfolhada ou no agreste sem fim, ele é apenas simples e bom.
E, como os bons e os simples, humanamente alegre. Antes, não lhe sobra tempo para as grandes alegrias entusiasmadas. O campo, a vaquejada, a pega, meio ano, e outro meio, a roça para o sustento com coisa de bem pouca monta – o arroz, o feijão e a mandioca de farinha – enchem todas as horas da sua vida fadigosa.
Quando chega a casa, enfadado do campo ou do roçado, escravo da promessa das nuvens, a ceia a rede já o esperam. E ali é só dormir para acordar escurinho, a tirar o leite ou olhar as criações. Ė sua labuta de todo o ano. Às vezes, uma pinga, uma “missa do galo”, ou um batizado, mesmo porque, Deus que lhe deu tantas canseiras, não lhe dá de permitir muitas preocupações metafísicas, nem muitas obrigações devocionais.
A vida é aquela: monótona, igual, porém sua. Vida de vaqueirice. Sertanejo honesto e trabalhador. Montado na dura sela campeira, a vida para ele é um constante perigo, que não vê. O vaqueiro é o homem que não tem medo da vida. Transpõe, de um salto, na carreira louca, valados e riachos. Sobe morros. Voa, em cima de pedras. Vara, como um demônio, o mato fechado.
A vida é um risco! Mas vale a pena como o vaqueiro exalta, na sua carreira despencada, o desprezo das ameaças e faz, com isso, mais preciosa a vida, porque mais perigosamente vivida. E mais bela. Porque o domínio do perigo é sempre um movimento de beleza. E mais heroica. Porque o sentimento e a consciência do perigo são a única real sanção de bravura.
Senhores! Aí está um programa de trabalho urgente: a salvação desse inestimável patrimônio humano, pela sua vinculação ao solo.
Reveste-se, quiçá, de maior premência a sua execução – permiti-me dizê-lo – para a defesa do sertanejo, que coopera diretamente na economia nordestina, hoje a viver os imprevistos ciclos da cera de carnaúba e do babaçú, do cacau e das fibras, sem esquecer o ofício tradicional da vaqueirice e da lavoura comum.
As populações do Nordeste vão se tornando assustadoramente nômades, não apenas pelo fenômeno periódico das secas, mas pelas condições especiais da nossa educação ocidentalizantes e da nossa economia feudal: o “agregado”, o peão das nossas bandas, é menos do que o servo, porque se despeja, como uma coisa, das terras, por qualquer motivo, ou sem nenhum.
Não se trata de migração venturosa, o pioneirismo conquistador de outros rincões. O próprio cangaço, em que o sertanejo não raro se tem motivado pela pilhagem, não é um fenômeno brasileiro: antecede-lhe de muito, na Europa, a atividade bandoleira dos comitadjis...
É indispensável racionalizar a fixação do sertanejo, dar-lhe garantias de pouso, no amanho da terra e na permanência das possibilidades de trabalho. Ė inadiável tornar realidade social a tendência de radicação do homem do Nordeste." (1)
(1) MARTINS NAPOLEÃO, Benecdito, consultor jurídico do Banco do Brasil (3/5/1967 a 16/9/1977) – Discurso proferido, em 20/2/1952, ao ensejo da aprovação do novo regulamento da Carteira Agrícola e Industrial, em homenagem ao diretor Loureiro da Silva – Autorização concedida, em 30/1/2007, por Igor Silva de Martins Napoleão ao escritor Fernando Pinheiro. – In HISTÓRIA DO BANCO DO BRASIL, de Fernando Pinheiro.

O uso da Marca Registrada aludida nesta Obra Histórica, amparada pelo registro no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional – Ministério da Cultura, dependerá de autorização de seu Titular.
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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

IMPÉRIO DA TIJUCA - 2014

Anunciando que o chão vai tremer, na batida do pé, na batida na madeira, coisa de pele, o maior argumento da união de corpos de casais, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Educativa Império da Tijuca, campeã da Série A do Carnaval de 2013, apresenta nos idos de 2014 o samba-enredo Batuk, “sinfonia imperial” conquistando os salões de festa e a própria Avenida na batucada que se espalha nesse chão.
O coração batendo mais forte, sentindo a vibração das savanas e das florestas tropicais da África, onde a natureza está presente, há um batuque de tambores que faz reunir toda a gente da aldeia de lá e de cá, na mesma aldeia global, numa festa, a quizomba.
A Lua, clareando a aldeia, envolve sem laços prendedores a todos nós, em doces afagos que nos estimula a pensar em cada cultura que entoa rituais, no Ocidente e no Oriente, em cura de mazelas pela devoção em momento de mágica beleza. Na quizomba africana na festa dos orixás “firma o ponto na gira não deixa cair.”
Este é o momento certo, o Kairós da mitologia grega, em que o tempo é encarado não mais na preocupação da contagem do tempo, em que se estabelece os horários e os compromissos individuais e sociais. A cronologia dentro do tempo de Kronos continuará, na dimensão dissociada planetária que está indo embora do planeta, e na abordagem de Kairós há o suscitar de um tempo numa dimensão quintessenciada, onde a beleza é eterna.
Todos estão percebendo que há uma mudança de paradigma no comportamento humano que abrange todas as culturas dentro do dualismo humano que se dilui com a chegada daquilo que os orientais chamam de samadhi e, em nossa cultura ocidental, a beatitude ou santidade ou, ainda, santificação. O papa Pio XII, o papa da diplomacia, foi o pioneiro na mídia mundial a falar sobre a sacralização do planeta.
É o momento oportuno de vivenciar a nova maneira de aproximação com as pessoas, não mais criticando-as, nem censurando-as para que não haja julgamento e, em consequência, a separação. Com o advento das energias do amor as densas camadas de pensamentos que envolvem multidões de pessoas, pelo princípio de atração, em conluios de disputa e de separatividade, promovendo distúrbios emocionais, estão indo embora de nosso planeta.
Com a chegada do ano novo, aqui no Brasil, com intenso calor, em pleno verão, há uma movimentação intensa de pessoas em direção das praias, piscinas, parques como sinal de que devemos buscar novas opções que nos dê satisfação de viver. Os ensaios de escola de samba nesta época são intensos e ao alcance de grande público, inclusive turistas.
O caminhar através da dualidade humana (certo/errado, bem/mal, bonito/feio e outras expressões correlatas), é sempre penoso e exaustivo, fazendo muitos cair pelo caminho. Somente a vivência nos 4 pilares: simplicidade, humildade, transparência e alegria é que poderá ascender a uma dimensão existencial onde a dor e o sofrimento não existem mais.
A alegria da Escola de Samba Império da Tijuca, celeiro de bambas, enaltecendo também a capoeira, como arte no processo da integração social, desperta essa dimensão existencial e que podemos observar na letra: “na ginga do corpo, na batida do pé, axé, axé!, eleva a alma, o canto e a dança, unindo as raças na fé e na esperança.”

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O CHI DO TAO

As decisões, na densa consciência trina em que o planeta vive, e que está em transição para um patamar de elevação de vibrações, arrastam multidões ao sofrimento e dores inenarráveis ou descortinam novos horizontes em que podemos ver as pessoas felizes.
A vivência no dualismo humano em que se posicionam as posturas do certo e do errado e as conveniências próprias para as pessoas alcançar seus objetivos, inclusive na área afetiva, traz consequência porque as decisões são carregadas de energia, o Chi do Tao, e como tal tem direção em que foram impulsionadas. No Taoísmo não há dualismo.
As noites de insônia são noites em que os pensamentos não ficam adormecidos, pois a lembrança constante dos engramas do passado não conseguindo transcender a transmutação, deixar o que deve ser deixado e lembrar o que deve ser lembrado, isto não dentro das emoções, mas dentro do coração, o nosso ser profundo, de onde se abriga todo o nosso sentimento de amor.
Nesse clima favorável, a potência do ser, que todos nós temos, é acionada por novos pensamentos e a vontade que ela tem de demonstrar ser fêmea para o seu amado é altamente apreciada em doces afagos que fazem incendiar o que ficou retido, agora transformado em calor, somente calor.
Há uma catarse que veio das noites mal dormidas em que ela transfere para a vida as armadilhas que lhe foram traçadas, mas na verdade são seus os pensamentos que se originaram essas armadilhas, agora deixadas de lado para que novas paisagens íntimas tenham o efeito regenerador.
Atraímos sempre o que pensamos, nas máscaras em que usamos para disfarçar situações ou agradar pessoas que não estarão conosco nas horas da solidão. Este é o reflexo do dualismo humano que se encaminha para o abismo, na postura daquilo que é considerado certo em que fica mascarado o que não nos convém em termos de alma que busca outro referencial onde a felicidade é indestrutível.
Beber vinho, beber champanhe, assistir a cenas de violência na televisão, comentar assuntos de corrupção, criticar posturas ou condutas que são diferentes do nosso modo de viver, namorar com pessoas que nem as conhecemos, aceitar convites em que não podemos comparecer, eis algumas observações que devemos ter cuidado em participar.
Vivamos o nosso ser profundo, o que acham de errado naquilo que não compreendem em nós, é apenas as pessoas determinando o caminho que seguirão e nós seguiremos o nosso. Não criticar nada, nem mesmo curtir comentários ou dizeres em que suscitam a crítica nas redes sociais da internet.
Para conquistar um amor não é preciso nem falar, basta ter a vibração saindo de nosso coração que sai, no espaço que alcança quem está dormindo em outro lugar onde moramos. É assim que os animais têm o amor de seus donos e seus admiradores, os seres multidimensionais recebem essa corrente que se espalha pelo espaço e estão sempre perto, embora estejam longe.
Quem ama não sente solidão, a solidão é uma ilusão de quem pensa que está só. Ninguém está só. Estamos interligados com os amores que nos acolhem, tanto desta esfera física como nas esferas resplandecentes onde o amor se faz sentir mais presente.
Se os amores terrenos não nos amarem, eles terão outros tipos de amores que escolheram e nós teremos sempre aqueles que decidimos ter, estes sim fazem parte de nossas decisões.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

CAMINHAR JUNTOS

A vida de casal, nesta densa dimensão planetária, é uma prisão, resultando sempre na separação, pois a separatividade é característica da consciência planetária dissociada que faz separar não apenas os casais, mas todos os grupos sociais que se reúnem, nisto está incluído também a competitividade.
Os casais, que se afastam dessa consciência planetária, transcendo-a a dimensão unificada, passam a caminhar juntos e não mais em rivais disputas que sempre os afastam do convívio comum. Há um jogo de interesses quando se envolvem em dinheiro, sexo e status social, que sempre os aprisionam por ser dependência. O certo seria que ambos fossem independentes em todos os sentidos que abrangessem todas as áreas da sociabilidade.
O príncipe encantado, estilo de conduta nas novelas e na vida prática, é ainda a referência para quem está nessa dependência que, consciente ou inconsciente, coloca uma redoma para aprisionar-se, mas não é visto nesse sentido porque o ego fala mais alto e o importante são as necessidades atendidas não importando como são realizadas.
A independência surge quando um dos parceiros resolve procurar a liberdade financeira ou emocional, dentro de um emprego ou na pensão que irá receber dentro do processo da separação judicial, uma vez conquistada parte para o processo da libertação, pois não há liberdade, aqui na Terra, sem libertação.
O ego que oscila entre o bem e mal, o certo e o errado e outras expressões correlatas do dualismo humano, oscila para a extremidade que lhe apraz e faz despertar o desejo de ser livre para viver uma nova vida, sem a presença de quem a colocou, porque assim quis, numa redoma aprisionante.
O casal entra em conflito: ele ainda persiste dentro da posse que a dependência dela lhe traz perto dele e ela não aceita mais essa dependência pela possibilidade de ser livre, emancipando-se por recursos próprios, no trabalho ou por herança familiar ou de terceiros ou mesmo por dinheiro advindo de pensão que a separação judicial pode lhe conceder.
Como em toda situação nova, o importante é a introspeção para observar seus limites, suas forças e suas possibilidades que devem ser conduzidas no caminhar com leveza, sem atropelos e ressentimentos. O passado fica arquivado e não queiramos saber onde está o arquivo.
O ombro amigo, o elogio de consideração pelo que fazemos é sempre secundário, o que deve prevalecer em primazia é o que realmente pensamos e possibilita a nossa escolha, livremente. Se estivermos na camada densa em que o ego tem o seu reino, há sempre o perigo de estarmos na oscilação do que chamam de bem e o que chamam de mal, nesse dualismo comum ainda entre os homens.
Dentro do sono, onde o nosso ser profundo vive e pode ser sentido nos momentos de calmaria, podemos sonhar com a realidade que nos envolve, despertando-nos a seguir o caminho que nos conduzirá a liberdade, não mais condicionada a nenhuma dependência, inclusive ideológica e os conceitos sociais que estão se transformando.
Em tempos não muito remotos, a mulher separada era considerada de pouco valor, hoje a valorização da mulher ganha espaços até mesmo nos recintos em que a sociedade pouco valoriza por uma questão de separatividade provocada por preconceitos.
Alcançada a liberdade, não mais condicionada, a mulher será realmente feliz numa felicidade que estenderá seus raios numa luminosidade interna que conecta com os mundos felizes, fora do planeta Terra. Tudo é possível para aquele que crê, é o dito popular que vem dos escritos sagrados.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O RETORNO (IV)

Antes de prosseguir na continuidade da Série O RETORNO, na qual focalizamos o personagem Atílio, nas três postagens levadas ao ar nos dias 28 de junho de 2013, e 8 e 16 de agosto de 2013, no blog Fernando Pinheiro, escritor, transcrevemos os três parágrafos iniciais da crônica O RETORNO (III):
Mais uma vez a novela Amor à Vida da TV Globo mostra o retorno de Atílio (Luís Melo). Desta vez para a casa de Gigi (Françoise Forton), a ex-esposa que já teve boa vida e agora residindo numa casa velha com problemas de infiltração de água nas paredes.
A mente dele está convulsionada pelos últimos acontecimentos que colocaram à frente as duas esposas que disputavam o jogo da realidade no ambiente que ficou obscurecido até a chegada de Vega, papel da atriz Christiane Tricerri, e de Márcia, a outra esposa, protagonizada por Elizabeth Savalla.
Agindo rápido, a esposa Vega, com as provas de bigamia e de falsidade ideológica e ainda do laudo médico comprovando o tratamento psiquiátrico, conseguiu uma liminar do juiz confiscando todos os bens de Atílio, inclusive a conta corrente em banco e os respectivos cartões de crédito.
Por conveniências, Atílio está na casa de Vega que o mantém sob o domínio. Numa conversa no quarto de casal, ela afirma a ele que não é a favor da liberação, por medida judicial, dos bens do ex-marido porque ele, com isto, irá dar dinheiro a Márcia, a quem ele nutre forte atração física e gosta de viver no papel de Gentil (dupla personalidade).
Na consulta médica em que havia a possibilidade de alta do paciente Atílio, se tudo corresse bem, ele viu as ancas largas da médica e a chamou de gostosa e passou-lhe as mãos. Ela reagiu e notou sintomas de anormalidade no paciente, por isso não lhe deu alta. Ele se justificou dizendo que tinha se lembrado da Márcia.
Pensar em outra pessoa, sempre atrapalha as relações amorosas, pois na cena de amor do casal Eron (Marcello Antony) e Amarilys (Danielle Winits), que estava se abraçando no sofá, levada ao ar em 6/1/2014, houve a interrupção e ela perguntou a ele num clima de cobrança: “você estava pensando em Niko?”, papel representado pelo ator Thiago Fragoso. O susto dele já era a resposta, nem precisava falar.
Na dupla personalidade o ego se manifesta fazendo tudo complicar. Não é o vislumbre do seu ser profundo, o Eu superior é estável e onde se deslinda os enigmas do caminhar. O ego é complicado e não admite a simplicidade.
O ser profundo, que todos nós somos, somente é manifestado quando há a vivência em 4 pilares: simplicidade, humildade, transparência e alegria. Não é necessário o desejo, pois o desejo é do ego, e o ego nem sabe direito o que quer, nessa oscilação de querer.
O eclodir do Eu superior acontece, na maioria das vezes, através do sono. Nas artes, nos esportes e, em algumas espécies de danças, principalmente a clássica, esse eclodir também aparece. Carl Jung chamou-o de a potência do ser e Freud a libido que não se restringe apenas à área sexual.
O cerceamento em que vive o personagem Atílio é muito comum na Psiquiatria, onde há pacientes que não têm condições de exercer o direito de escolha, inclusive no campo emocional, principalmente se o caso for grave com o uso pesado de medicações que leva ao entorpecimento.
A ocupação em atividade física e intelectual no trabalho, e nas atividades de lazer e entretenimento, é um recurso valioso em que mente fica ocupada e não dá espaços a questionamentos íntimos em que há uma situação não resolvida, abafada por essa ocupação.
Os engramas do passado existem, porém são esquecidos por essa conduta que passa ocupar o tempo todo da pessoa envolvida. Não é a vontade nem o querer que faz isto, pois se for alimentada, a ansiedade aumenta. É no sono, como dissemos, que a postura se modifica, isto até sem pensarmos que está acontecendo ou vai acontecer. É aquele travesseiro dos antigos que denotava a consulta. Dormir e tudo pode acontecer no mundo de Morfeu ou o Mundo do Sono.
Atílio, mesmo com um cargo na Diretoria do Hospital San Magno, ainda não se sente independente financeiramente, há os bens bloqueados e há ainda a situação desconfortável emocionalmente na casa de Vega, onde não tem aquilo que gostaria de ter com a Márcia, vivendo, assim, submisso para manter o status de diretor.


domingo, 5 de janeiro de 2014

A DESPEDIDA

Não há o que comemorar numa separação de casais, as lembranças estão numa redoma envolvendo a ambos, a fuga para a bebida é um abismo que se estende aos nossos pés, se dermos peso e referência ao que não existe mais.
O lembrete é oportuno a todas as pessoas que recorrem ao álcool como forma de fuga ou dispersão: se você continuar bebendo, bebendo, as pessoas vão te levar para o Centro de Atendimento Psiquiátrico do SUS ou em clínica psiquiátrica particular, se você tiver muito dinheiro para gastar. E lá você vai viver uma vida dopada de drogas lícitas e não mais reconhecerás mais nada. Vale lembrar que, segundo a OMS - Organização Mundial de Saúde, álcool é droga. Leia a crônica ÁLCOOL É DROGA - 17/10/2013, no blog Fernando Pinheiro, escritor.
No momento oportuno, o coração decidiu o destino que ambos teriam: um partiu e o outro ficou, numa partida em que não se mede a distância, o que torna implícito o fim do romance. A gente pode estar namorando, mas não quer dizer que há um vínculo unindo o casal, esse é o modismo atual, aliás chamam a isto de ficar.
Se não houve amor quando estavam juntos, porque haveria de pensar que há amor agora na separação? Esta suposição entra em polaridades de sentimentos, considerando que tudo que se pensa é criado, pois é energia que se movimenta, é o Chi do Taoísmo. No Tao não há dualismo.
Não existe saudade de um amor que não aconteceu, o ego surge porque não quer perder e se complica na contradição.
Os engramas do passado existem porque são pensamentos revelados em situação que cria uma egrégora própria ou psicosfera e viaja no campo vibracional onde se encontra o nosso viver, como observou Carl Jung na fantástica descoberta do inconsciente coletivo.
Na separação do joio e do trigo que um dia ocorrerá a todos deste planeta, pois ninguém nasceu para a semente, as pessoas irão para onde está a própria irradiação criada por elas mesmas e, na afinidade desse teor vibratório, serão arrastadas a mundos semelhantes em que está vivendo.
Nessas circunstâncias, se perceber a diferença naquilo que sonhou um dia, e a própria realidade criada, não adiantará mais retroceder porque a egrégora já está formada, é por isso que a luz crística encarnada alertou para o final dos tempos: “haverá prantos e ranger de dentes.”
O momento é de reflexão: somos o que somos e não pode ser diferente, pensou-se em desencantos e logo os desencantos surgirão, a nossa sugestão é a saída, em nossa vida, do dualismo humano que cria duas polaridades, oscilantes nos pontos extremos e sermos o que realmente somos, na realidade que transcende as aparências.
Relembrar suposições é voltar-nos contra nós mesmos, e cair nas mãos de quem não tem acesso ao nosso mundo íntimo e, por uma questão de cultura, hoje vigente no planeta, há o apelo religioso e a busca de profissionais de saúde que, no clima questionável até mesmo entre eles, que pode indicar drogas lícitas que irá modificar a nossa estrutura interna, se assim quisermos que aconteça.
Sejamos nós mesmos e não o que os outros pensam o que podemos ser nem demos peso e referência àquilo que, na realidade, não existe, iludindo-nos. O coração é o nosso ser profundo, que todos nós somos, e que se interliga com a fonte.
Sigamos com leveza.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

PEGUEI UM ITA NO NORTE

Acadêmicos do Salgueiro apresentaram, nos idos de 1993, o samba-enredo “Peguei um ita no Norte” que fala como era a vinda de pessoas do Norte para a cidade do Rio de Janeiro em navios que eram popularmente chamados de ita.
Com textos extraídos da obra HISTÓRIA DO BANCO DO BRASIL, de Fernando Pinheiro, abordamos aqui, de maneira sucinta e resumida, o tema transportes no Brasil naquela época:
Assim como o Banco do Brasil é o elemento da integração nacional, o Serviço Aéreo Condor (Sindicato Condor Ltda. – Rio de Janeiro) participa, nos idos de 1939, dessa integração, unindo Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Natal, Floriano, Parnaíba, Belém, Marabá, Carolina, Rio Branco, Guajará–Mirim, Cuiabá, Santos, Curitiba, Porto Alegre [Revista AABB – Rio – 1939].
Nessa época o transporte de passageiros da Condor era realizado por aviões trimotores JU 52, de origem alemã. A imprensa divulgou a queda de alguns desses aviões em território nacional. Com as dificuldades encontradas na reposição das peças originais, provocadas inicialmente pelas circunstâncias da Segunda Guerra Mundial, esse tipo de aeronave foi, aos poucos, desaparecendo e, em 1950, já não havia no Brasil a aeronave JU 52.
A aviação comercial brasileira sofre mudanças. Nos idos de 1950, os Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul Ltda. cobria todas as capitais brasileiras, incluindo em seus roteiros de viagem as cidades do interior: Pelotas, Caravelas, Canavieiras, Ilhéus, Petrolina, Mossoró, Parnaíba, Marabá, Santarém, Guajará–Mirim, Xapuri, Cruzeiro do Sul, Cáceres, Aquidauana, Araçatuba, Carolina, Conceição do Araguaia, Porto Nacional, Anápolis e a Ilha Fernando de Noronha [Revista AABB – Rio – 1950].
No entanto, na área internacional, na década de 40, já havia conexão para o exterior, conforme se observa da transição da referida obra:
Na chegada a Miami, Flórida, viajando pela Pan American Airways, o presidente do Banco do Brasil recebeu mensagem de boas–vindas de H. Donald Campbell, presidente do The Chase National Bank ofthe City New York, passada por telegrama, via Western Union, 1940, Oct. 7pm 5:15 [CAMPBELL – 1940].
Segundo a Revista AABB – Rio, nos idos de 1948, Adolpho Schermann, secretário do COB – Comitê Olímpico Brasileiro, chefia a delegação brasileira que mais brilhou, até então, em Olimpíadas, o 3° lugar (basquete masculino) nos Olympic Games de Londres. A delegação viajou no avião Constellation da Panair do Brasil, prefixo PP – PCG. E, ainda, segundo o Comitê Olímpico: Em Londres, a conquista da primeira medalha, em esportes coletivos, o bronze olímpico foi para o basquete masculino.
Por ironia do destino, segundo coletânea de Cídio da Silveira Carneiro e João Vieira Xavier, o advogado Schermann foi liquidante de todos os escritórios da Panair do Brasil, no exterior, como procurador do Banco do Brasil e assessor do Síndico da Massa Falida. O procurador recebeu elogios de juízes e curadores que acompanharam o processo de liquidação, onde foi verificada a remessa à Massa de US$ 650 mil.
Em 12/5/1987, o funcionário NamirSalek, em grande estilo, assume a direção da CACEX – Carteira de Comércio Exterior, em substituição de Roberto Fendt Júnior.
No discurso de posse, o diretor da CACEX ressaltou os aspectos da economia brasileira do passado recente, extrativa e agrícola, na qual os transportes possuíam uma vocação pastoril, ligando uma província a outra. As ferrovias eram restritas no âmbito de cada Estado. Existia, em grande escala, a exploração da navegação costeira. Não havia malha ferroviária nem rodoviária. Foi lembrado que a pavimentação da estrada Rio – São Paulo somente ocorreu ao romper da década de 50 [SALEK – 1987].
A propósito, a Escola de Samba Salgueiro, mais tarde, no Carnaval/1993, iria apresentar, no Sambódromo na Av. Marquês do Sapucaí, Rio de Janeiro, o samba–enredo “Peguei um ita no Norte”, expressão usada pelo povo do Norte brasileiro que se dirigia ao Sul do País, espelhando toda a realidade da navegação mencionada pelo diretor. [in HISTÓRIA DO BANCO DO BRASIL, de Fernando Pinheiro].
O enredo do samba do Salgueiro traz poesia numa narrativa de viagem de quem se despede de Belém do Pará bastante animado, jogando no balanço das ondas do mar a saudade da terra natal. Pelo litoral brasileiro, vai olhando as cidades e seus costumes onde o navio faz baldeação e finalmente a chegada:
“Chego ao Rio de Janeiro, terra do samba, da mulata e futebol, vou vivendo o dia-a-dia embalado na magia do seu carnaval. Explode coração na maior felicidade (bis). É lindo o meu Salgueiro contagiando, sacudindo essa cidade.”