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segunda-feira, 2 de julho de 2012

CANÇÃO DOS BARQUEIROS DO VOLGA

Os ventos nas estepes frias sacodem os pinheiros em florestas mergulhadas na solidão. A neve se espalha por extensões de terra durante a maior parte do ano.
Os lobos seguem em caminhadas à procura de alimentos; aves pousam em reservas ecológicas, onde outros animais lhes fazem a perseguição. O voo é a fuga mais segura. Folhas de árvores caem e, em pouco tempo, são cobertas pela neve. A paisagem russa se reflete na música.
A Canção dos Barqueiros do Volga, possivelmente a mais popular do folclore russo, nos revela que os troikas deslizam, sofrem os moujiks e, ao som de mil balalaikas, gemem canções do Volga... de sonhadores... pois, os barqueiros também têm amores.
A música, sob compassos fortes e vigorosos, marca um arrebatamento selvagem e, ao mesmo tempo, desdobra um tom de melancolia, sem nenhum traço de tristeza mórbida, refletindo-se a solidão das terras impenetráveis que se misturam com as paisagens onde o rio corre por entre bosques e cachoeiras.
Os barqueiros do Volga cantam o vigor da vida que se espalha pelo verde das florestas, pelo vermelho do sangue que mantém a vida animal, pelo azul que revela o infinito, pela alma transparente aos sonhos guardados em outras dimensões.
A melancolia da música russa não pode ser apreciada isoladamente, como não aceitaríamos a vida sem as alegrias que se misturam à tristeza. Os sonhos, que estão à frente dos passos, representam apenas algo a fazer. O tempo é sempre um referencial marcante em nosso caminho.
Os barqueiros eslavos cantam a vida nas estepes frias e, lembrando-se dos seus lares, sentem a nostalgia que se transfere para os pinheiros. Não estão nostálgicos e afirmam cantando: “os barqueiros também têm amores... têm amores”.
A nostalgia, que está tão perto da tristeza e da saudade, é apenas uma falta de percepção dos amores que circulam em nossos ambientes de trabalhos, lazer e moradia. A solidão é bloqueio de oportunidades em que existem muitas pessoas querendo participar.
Como é importante observarmos tudo que chega a nossas mãos, numa lição preciosa que eterniza o momento. Não apenas a satisfação na pele, mas no envolvimento que possui raízes profundas.
São admiráveis as pessoas que passam um sorriso no olhar, como os pinheiros que passam o canto dos ventos, como fazem os cantores barqueiros afirmando que também têm amores... têm amores...
As árvores recebem a onda da vida, a onda galáctica que derrama os raios adamantinos, destinada a tudo e a todos. No entanto, o homem, vivenciando a ilusão, se reveste de franjas de resistência, não deixando essa onda entrar em sua vida.
O medo do desconhecido, imposto pelo fogo prometeico que falsificou esta humanidade, não permite ao homem a descoberta de sua realidade, a verdadeira essência. A educação, as crenças naquilo que pensam que ele é, desviam-lhe o caminho. E o que é pior: o desconhecido é ilusão e o verdadeiro é o ele que vive, numa ordem invertida, pois o fogo prometeico tem esse papel.
A separação do joio e do trigo é uma realidade neste final dos tempos, desta densa consciência planetária que está indo embora.
A Canção dos barqueiros do Volga ganhou o mundo inteiro porque traz a afirmação de um sentimento que afasta qualquer traço de nostalgia. O amor no coração preenche todas as lacunas.
A repercussão é comovedora porque a canção surgiu, entre as paisagens russas, unindo os povos no mesmo sentimento em que os casais buscam uma expressão particular. A nível transcendente aos lares e pátrias, a força ainda é bem maior porque não há poluição nas fontes límpidas e nos sentimos à vontade para mergulhar nessas fontes, fontes eternas.
Vídeo no Youtube: Russian Red Army Choir - Song of the Volga Boatmen – 1965
As minhas amigas russas Irina Orlova, Galina Lukyanova, Yulia Shumkova, e a africana Mirabelle Omo, residindo atualmente em Moscou, que o amor seja a nossa liderança.
Blog Fernando Pinheiro, escritor    
      Site 
www.fernandopinheirobb.com.br

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